Princípios e valores: os que você carrega te sustenta?

A base, fortaleza e luz "invisíveis" para as jornadas e desafios da vida

Marcelo Tempesta, PhD

1/19/202611 min read

Você está atento ao conjunto que carrega ou sequer tem ele bem definido?

Nesta nossa jornada que está apenas começando, estamos criando o hábito, instalando uma cultura, estruturando uma filosofia - de estabelecer princípios e valores bons e do bem. E já deixo claro: isso não é um “tema bonito”. É uma escolha ousada e radical. Porque princípios e valores não são enfeites de discurso, eles se revelam através de nossos comportamentos frequentes. Lembre-se sempre - manifestamos para o mundo aquilo que está transbordando dentro de cada um de nós. O que mais temos internamente, inevitavelmente, é exteriorizado (manifestado) das mais variadas formas para o nosso redor.

Um conjunto de princípios e valores é aquilo que te governa quando ninguém está te vendo. É aquilo que te governa quando você está sem energia, estressado(a), com raiva, com medo, triste, com pressa, desatento(a), inseguro(a), na dúvida, transitando entre tantas outras emoções e sentimentos mais. Assim como quando exposto(a) aos mais variados estímulos de ambientes negativos – quando em contato com suas más influências e provocações, quando em contato com as sedutoras narrativas de atalhos e prazeres imediatos sem requisição de esforços, entre tantas outras distrações e tentações negativas do mundo atual.

Em outras palavras, um conjunto de princípios e valores norteia atitudes que podem ser estendidas e adaptadas de acordo com vários outros contextos, em qualquer área da vida que queira considerar e em seus mais diferentes aspectos. Porque, no fundo, a vida não muda por acaso. A vida muda quando você muda os critérios pelos quais você vive e se mantem fiel a eles.

E aqui eu me recorro a Sócrates, pois frente ao desejo de qualquer mudança ou melhoria de resultados, ele não deixaria você passar imune ao seguinte questionamento: ele não perguntaria “quais são seus objetivos?”. Ele perguntaria: “Quais são os seus princípios e valores?” Porque objetivos sem um conjunto de princípios e valores bem estabelecidos por nossa parte - viram abstrações – viram palavras sem significados verdadeiros ditas ao vento, viram apenas escritas com datas para serem jogadas fora em vez de experiências concretizadas.

Ao adotarmos princípios e valores bons e do bem como hábitos diários (nos mantermos fiéis a eles), mudamos nossas opiniões/crenças/convicções sobre os desafios da vida, transformando-os em oportunidades de crescimento e estendendo essa força para todas as áreas, do profissional ao pessoal, evitando que nossos automatismos maléficos nos mantenham presos em ciclos limitantes que nos distanciam da construção e desfrute da vida que, verdadeiramente, lá no íntimo tanto desejamos.

Princípios e valores como base, fortaleza e luz - e por que a maioria não tem bem definido e claro em sua mente...

Para cumprir os objetivos e intenções desta presente reflexão, de tempos em tempos reforçamos princípios e valores que são como base de sustentação, fortaleza e luz para esta nossa jornada de desenvolvimento de um pensamento crítico cada vez melhor — e ouso dizer que deveria ser aplicado também a qualquer outra jornada que queira considerar – visto que eles nos fazem enxergar tanto melhores caminhos e formas de caminhar, quanto nos direcionam para realmente percorrê-los. Com um conjunto de princípios e valores bem definidos tudo fica mais evidente, faz mais sentido, e abrimos portas para que o inimaginável aconteça.

E aqui vale uma primeira provocação: a maioria não sofre por falta de informação e atitude. A maioria sofre por falta de direção interna. Epicteto diria que uma vida sem direção vira servidão — porque, sem um norte, você é empurrado por qualquer vento: opinião dos outros, medo de desapontar, necessidade de aprovação, urgências do dia a dia, desejo por prazeres imediatos, entre tantas outras leves brisas mais...

Marco Aurélio teria outra forma de dizer a mesma coisa: quando você não tem princípios claros, você vira uma “cidade sem muralhas”. Qualquer coisa entra. Qualquer ideia te captura. Qualquer emoção te domina. Você não tem filtro. Você só tem reação e se distrai com qualquer "canto"...

E se você está sendo honesto(a) consigo mesmo(a) neste momento, vale uma reflexão mais profunda sobre algumas perguntas um pouco mais provocativas:

  • Você tem princípios bem definidos, daqueles que servem como âncoras inabaláveis em meio às tempestades da vida, ou só tem hábitos automáticos, repetições vazias que o mantêm preso em ciclos reativos, sem direção consciente?

  • Seus "hábitos" são comportamentos deliberados que elevam a sua jornada, ou meros padrões inconscientes que o desviam do caminho da excelência, impedindo que você construa uma realidade mais próspera, baseada em escolhas autênticas (verdadeiramente suas)?

  • Você tem valores profundos, enraizados em uma visão ética, justa, de temperança e duradoura, que guia suas decisões em todas as áreas da vida, ou só segue preferências do momento, impulsos fugazes que mudam com o vento das circunstâncias, deixando você à mercê de emoções passageiras?

  • Você vive por convicção, com um compromisso inabalável com princípios que transcendem o imediato, impulsionando mudanças e melhorias reais em sua vida pessoal e profissional, ou por conveniência, ajustando-se ao que é fácil e confortável no momento, sem questionar se isso te leva à estagnação? De uma forma mais incômoda: este é um convite para refletirmos se nossa vida é guiada por convicções que demandam coragem e diligência, ou por conveniências que evitam o desconforto, perpetuando uma existência medíocre em vez de uma vida transformadora.

Proponho um pequeno exercício:

  • Escreva 3 princípios inegociáveis que você quer que governem suas decisões nos próximos 30 dias (curtos e claros)

  • Para cada um, responda: “Como isso aparece (se manifesta) no meu comportamento quando eu estou cansado(a) ou nervoso(a)?

  • Escolha um ambiente de crescimento (pessoa, grupo, livro, mentoria, rotina) e decida: vou me expor ao atrito que me melhora - não ao conforto que me adormece.

Lembre-se: Conhecimento não é poder... Poder é comportamento de qualidade guiado pelo conhecimento de qualidade! Por isso reforço - autoconhecimento só desperta e liberta de verdade quando aplicado com um pensamento crítico de qualidade.

A dedicatória que deveria servir de pilar para todos...

Aproveito este momento para compartilhar a junção de duas dedicatórias feitas por Richard Paul e Linda Elder, aos leitores de diferentes edições do livro “Pensamento Crítico: Ferramentas para Assumir o Controle de seu Aprendizado e de sua Vida” – uma das principais referências quando o assunto é pensamento crítico. Dedicatórias estas que inclusive representam um dos princípios que regem nossa jornada Tempestando:

“Para aqueles dispostos a trabalhar não apenas para melhorar suas vidas, mas também para criar um novo mundo, onde a justiça e o bom senso sejam norma e não exceção. E onde o poder serve a razão, em vez da razão servir ao poder. A todos aqueles que sofrem crueldade e injustiça devido ao preconceito, autoengano e pensamento antiético que dominam o mundo. E a todas aquelas pessoas que trabalham diligentemente e incansavelmente para trazer o pensamento crítico justo/imparcial para suas próprias vidas e para as sociedades humanas.”

Percebe o peso disso? Eles não estão falando apenas de “crescimento pessoal”. Eles estão falando de uma coisa bem mais rara: caráter intelectual - integridade. Um tipo de postura e conduta de vida que não se vende. Um tipo de mente que não se ajoelha para o que é conveniente.

E aqui identificamos uma conexão poderosa com Platão, que descreveu em sua obra “A República” uma sociedade ideal onde a justiça reina através de governantes filósofos que priorizam a razão sobre o poder; ele nos inspira a questionar se nossos princípios pessoais contribuem para um mundo melhor, ou se estamos perpetuando injustiças por meio de autoengano. Ele nos convidando a trabalhar incansavelmente para infundir pensamento crítico em nossas vidas, tornando a justiça não uma exceção, mas a norma que guia todas as jornadas e desafios de nossas vidas.

Aliás, aproveitando que citamos Platão, outra interpretação que podemos fazer de sua alegoria da caverna é que ele não está falando apenas de ignorância... Ele está falando de autoengano coletivo, de pessoas defendendo sombras porque viver a verdade exige coragem. E, muitas vezes, o preço de sair da caverna é perder conforto, perder aprovação, perder o “lugar” no grupo, entre outras coisas mais... Requer esforço, mas infelizmente, cada vez mais, as pessoas cansam só de pensar. Alias, a maioria transforma em problema qualquer esforço adicional, seja físico ou cognitivo. Mas enfim...

Uma vida sem buscas: que tudo aquilo que você chama de rotina não construa vazios

Pessoal! Princípios e valores bem claros e definidos em nossa mente são essenciais para qualquer jornada que a gente busque e decida percorrer em nossas vidas. Aliás, vida é tudo o que acontece entre uma busca e outra…

Quando não há buscas, sobrevivemos perambulando perdidos entre vazios sem muito sentido e significado e, muitas vezes, nem nos damos conta…

E aqui eu conecto este contexto com ensinamentos de Daniel Kahneman, de forma bem prática: nosso cérebro ama o automático. Ele prefere o conhecido ao verdadeiro, a repetição ao exame, a conclusão rápida à análise profunda. Isso economiza energia, mas cobra um preço caríssimo: você começa a chamar de “vida” aquilo que é apenas um conjunto de padrões automáticos e repetitivos. Este mecanismo é bem demostrado pelo filme "Click", para os olhares mais aguçados e intencionados.

Daniel Kahneman, no livro "Rápido e Devagar”, explica esses automatismos através do "Sistema 1" de pensamento – rápido, intuitivo e propenso a vieses – que nos leva a perambular em vazios sem reflexão. Ele nos provoca a ativar o "Sistema 2", mais deliberativo, questionador, justamente para romper ciclos viciosos, reconhecendo que sem buscas conscientes, caímos em ilusões de significados e sentidos de baixa qualidade, e que princípios e valores bem escolhidos atuam como antídotos, enchendo a vida com propósito ao questionarmos os automatismos que nos cegam.

Resumindo, fazemos isso inconscientemente devido aos ciclos viciosos e automatismos maléficos que já comentamos a respeito em outras reflexões Tempestando. E é neste ponto que cirurgicamente atua o pensamento crítico: ele nos ajuda a interromper estes ciclos – ele nos ajuda a fazer perguntas que a maioria evita:

  • Isso que eu estou vivendo são escolhas verdadeiras, feitas realmente por mim… ou estou “domesticado” e são escolhas feitas por outros que me conduzem como marionete? Escolhas fruto de procrastinações justificadas pela minha mente?

  • Isso que eu defendo tão assiduamente são convicções bem fundamentadas? Ou são achismos e suposições rasas e medo de questionamentos de melhor qualidade?

  • Isso tudo que eu repito são virtudes… ou são vícios que ignoro das mais diferentes formas, pelos mais variados motivos?

Pedro Calabrez costuma traduzir isso de um jeito muito útil: o cérebro “gosta” do caminho conhecido, familiar, mais “seguro” – tanto que ele se vicia em trilhas mentais justamente para garantir isso... E se você não cria novas trilhas - com reflexão, intenção e treino - você volta sempre para a mesma estrada. Mesmo quando essa estrada te faz mal - te custa paz, te custa crescimento, te custa as melhorias e mudanças que diz desejar... Te custa uma melhor versão de si mesmo, te custa o futuro que tanto sonha viver...

O que você quer de verdade?

Dito tudo isso - Cabe a cada um a decisão do quão profunda será sua conexão com qualquer busca que pretenda se envolver… Cada busca tem sua jornada e cada jornada tem seus processos. E isso é vida!

Cabe a cada um decidir o quanto vai se abrir e se permitir passar por cada passo de seus processos, assim como qual será o seu grau de entrega e comprometimento com cada um deles… Ou não… Qual será a qualidade de suas conexões - tanto a qualidade de tudo aquilo com que você se conecta, quanto a qualidade de sua conexão com cada uma destas coisas...

E aqui entra um ponto que Sêneca colocaria com firmeza: a maioria quer o resultado, mas não quer o preço emocional do processo. Quer a colheita, mas negocia o plantio e cultivo. Quer transformação, mas coloca seu ego e orgulho em uma posição intocável, se distanciando assim da verdadeira humildade - habilidade fundamental para o aprendizado e comportamentos de qualidade.

Adam Grant adicionaria um detalhe bem atual para esta reflexão: muitas vezes o que impede estes questionamentos de qualidade e comportamentos mais virtuosos não é falta de capacidade - é apego a uma identidade antiga. Você se acostumou a ser “assim”. E questionar isso parece ameaça. Só que crescimento sempre começa com uma frase desconfortável: “talvez eu esteja errado sobre mim, talvez eu esteja errado(a) no que acredito e deixo de acreditar...” "talvez eu esteja errado sobre isso..." E este tipo de atitude requer humildade, maturidade e coragem, entre outras habilidades do pensamento crítico - e claro - muita prática!

O que te sustenta quando a vida aperta?

Ter um conjunto de princípios e valores bem estabelecido é peça-chave para a conquista de cada busca que se queira considerar. Portanto, afie a sua mente para a plantar sementes de princípios e valores bons e do bem, e principalmente, cultivá-los - cuidar deles com qualidade.

Porque, pensa comigo: quando tudo está bem, qualquer um “acredita”, qualquer um “age/realiza”... Quando o clima é favorável, qualquer um faz uma “boa” gestão emocional e comportamental...

Mas e quando a vida aperta? Quando dá errado... Quando surgem crises, conflitos, caos... Quando ninguém reconhece... Quando bate o estresse, medo, ansiedade... Quando você se sente sozinho(a), desamparado(a)... Quando aparecem sedutores atalhos e distrações... É aí que nossos princípios e valores aparecem - ou somem... São nos desafios da vida que somos colocados a prova!

Napoleon Hill, em "Pense e Enriqueça", compara a mente a um jardim fértil onde sementes de pensamentos – bons ou ruins – germinam inevitavelmente. Ele nos inspira a plantar intencionalmente sementes de princípios e valores elevados, cultivando-as com diligência e emoção, pois assim colhemos conquistas inimagináveis, questionando se estamos nutrindo nosso "jardim mental" com qualidade ou deixando ervas daninhas tomarem conta.

Bob Proctor, estendendo as ideias de Hill, explica que princípios e valores bons e do bem são como programas instalados no subconsciente, que, quando cultivados diariamente, reprogramam nossos hábitos para o sucesso e prosperidade. Ele nos provoca a refletir sobre o quão ativamente estamos cuidando dessas sementes, transformando o pensamento crítico em uma ferramenta diária para cultivar com qualidade do “nosso jardim”, garantindo assim o florescimento de melhores realidades.

O neurocientista Pedro Calabrez complementa isso ao discutir como a neuroplasticidade permite que hábitos sustentados por um bom conjunto de princípios e valores se fortaleçam por meio de repetições intencionais, ativando circuitos cerebrais que combatem os automatismos maléficos. Ele nos alerta que sem esta prática consciente e intencionada, caímos em ciclos viciosos, mas ao afiarmos a mente e desenvolvermos um melhor pensamento crítico, criamos redes neurais resilientes (e até antifrágeis) que sustentam buscas profundas em qualquer área da vida.

Compreenda que princípios e valores são como códigos instalados no seu sistema. Se você não escolhe quais códigos entram, você roda o programa de outra pessoa...

Portanto, volto à frase que sempre martelarei: se não é você quem está escolhendo, estão escolhendo por você!

E aqui vai minha provocação final de hoje: Quais princípios e valores você diz que tem, mas não pratica quando é contrariado(a)? Quais princípios e valores você defende, mas abandona quando é inconveniente (ou conveniente) para você? O que na sua vida prova de verdade aquilo que você acredita?

Adam Grant, em "Originais", reforça a importância de estabelecer um conjunto de princípios e valores de qualidade, como guias para inovação e crescimento, mostrando como questionar o status quo - inspirado em pensadores originais - nos permite adaptar este conjunto a novos contextos, convidando-nos a refletir se estamos prontos para evoluir nossos princípios e valores ou se a rigidez nos manterá estagnados. Sêneca nos inspira: "Enquanto você viver, continue aprendendo a viver", enfatizando que cultivar princípios e valores é um processo vitalício de aprendizado, adaptação e evolução, nos provocando a questionar tudo isso e a transformar estas reflexões em ação imediata para aprofundar as conexões com nossas jornadas.

Na próxima semana vamos continuar falando um pouco mais sobre princípios e valores. Enquanto isso - boas reflexões!

Marcelo Tempesta, PhD