O seu conjunto de princípios e valores
Quais verdade e mentiras você anda carregando com tanta convicção?
Marcelo Tempesta, PhD
1/26/202611 min read


Quais verdades e mentiras você anda carregando com tanta convicção?
Continuando a linha de raciocínio iniciada na reflexão anterior, princípios e valores são como verdades fundamentais que cada pessoa assume pra si e que servem de sustentação para tomadas de decisões, escolhas e condutas que proverão aquilo que cada um deseja na vida.
Conectando esta introdução aos ensinamentos de Bob Proctor, mas em um sentido bem prático: você não se torna uma melhor versão de si mesmo “só porque entendeu algo”... Só porque adquiriu um novo conhecimento teórico/técnico. Este tipo de entendimento sem prática, na verdade, é entretenimento intelectual. O ponto é: aquilo que você aceita e adota como princípios e valores para mediar suas ações, e claro, coloca em prática com constância - vira padrão. E são os padrões que repetimos diariamente que moldam nossas realidades, em qualquer área da vida que a gente queira considerar. Este é um dos mecanismos relacionados a neuroplasticidade. Mas enfim...
Como mencionado em outros momentos, se não é você quem está escolhendo o seu conjunto de princípios e valores e, se este conjunto não está bem definido e nítido em sua mente – significa que outros estão escolhendo por você... E para piorar, na maior parte das vezes, sequer temos noção que isto está acontecendo.
Tanto a qualidade destas escolhas quanto a consciência (ou não) se somos nós quem realmente está escolhendo o nosso conjunto de princípios e valores é diretamente proporcional ao nosso grau de pensamento crítico.
Agora, pensa comigo: se a maioria das pessoas está no estágio de pensador irreflexivo, que é o mais baixo grau de pensamento crítico, a maioria sequer tem noção que não está no controle de suas escolhas. A maioria apenas “acha” que está, se aprisionando assim em ciclos viciosos de ilusões de escolhas.
E antes que a nossa rigidez mental nos conduza automaticamente à tendência de negar — dizer “comigo isso não acontece”, achar bobagem e ignorar este fato - reflita um pouco mais profundamente sobre isso. Faça uma autoavaliação de melhor qualidade (use o sistema 2 de Kahneman).
Muitas vezes o que nos limita de construir e saborear a vida de uma forma bem mais próspera, é justamente isso – a inflexibilidade de nossas convicções. Aproveitando o gancho, muitas pessoas pensam que mudar de opinião, mudar alguma crença (algo que acredita ou não acredita), significa sinal de fraqueza, inferioridade, perda de identidade... Estes “motivos” representam um baixo grau de pensamento crítico. Vale repensar a respeito, mas este é um assunto para outro momento.
Henry Ford já dizia: “Pensar é o trabalho mais difícil que existe. Talvez por isso tão poucos se dediquem a ele.” E, eu ouso complementar que, justamente por isso, a maioria não constrói e/ou desfruta de melhores realidades nas diferentes áreas de suas vidas.
O neurocientista Pedro Calabrez aprofunda esta questão ao explicar como o nosso cérebro prefere o "piloto automático" para economizar energia, mas que ao cultivar o pensamento deliberado – como Ford sugere – circuitos neurais são ativados, nos permitindo assim a sair de ciclos ilusórios de controle para um protagonismo de escolhas real.
A verdadeira busca para romper estes limiares de esforço (aquele ponto em que geralmente paramos por exigir de nós esforços maiores comparado ao que estamos acostumados), por si só, já é uma das formas de promover esta ativação – ela nos conecta diretamente ao senso de necessidade e dever de superar a “preguiça cognitiva” que nos mantém no estágio de pensador irreflexivo. Lembrando que Kahneman explica tudo isso com muita maestria no livro “Rápido e Devagar.”
Aliás, um ponto importante a ser reforçado: pensamento crítico não é “overthinking” e nem ficar apenas pensando excessivamente, no campo das ideias, ruminando pensamentos… Pensamento crítico é pensar com qualidade - é melhorar a nossa forma de pensar e criar realidades… As lentes com que enxergamos o mundo e consequentemente nos expressamos. Tudo isso envolve ação. E toda ação (ou não ação) tem origem na mente. Por isso dizemos que ao melhorar o nosso grau de pensamento crítico, proporcionalmente melhoramos o nosso poder de execução e sua qualidade.
E este é mais um ponto que o estoicismo e tantas outras filosofias já enfatizavam fortemente antes mesmo das tecnologias científicas provarem: para Marco Aurélio, a mente não é só um lugar onde pensamentos passam; é um lugar onde decisões, escolhas e condutas nascem. Se você quer mudar qualquer comportamento, você vai ter que encarar o que você vem alimentando por dentro - e por quanto tempo está alimentando isso.
Portanto, muitos podem até gritar que o que vale é agir. Mas me deixa compartilhar um conhecimento milenar... Coloca um pouco mais de carinho no seu foco agora. Uma atenção de melhor qualidade para o que eu vou dizer a seguir:
Tudo começa na mente!
As ações que você não consegue executar neste momento é por algo que está (ou não está) em sua mente. Da mesma forma que as ações que você gostaria de não executar, mas também não consegue parar no momento — também é devido a algo que está (ou não está) na sua mente. Ela é a origem de tudo. Não adianta contrariar. Gostando ou não, querendo ou não, acreditando ou não – é assim que as coisas funcionam.
E aqui, de novo, a neurociência conversa com a filosofia: se você não entende o que te move, você é movido pelo mundo. Se você não enxerga seus padrões, o mundo os impõe a você – te domestica, te governa. Por isso que quem não domina sua mente, não domina a sua vida.
Contrariar isso é negar e permanecer no ciclo das 4 fases iniciais do luto, como já mencionei em várias aulas de pensamento crítico, para quem teve a oportunidade de participar - Só com a aceitação se abre o “espaço” necessário para que transformações e evoluções aconteçam.
E isso tem tudo a ver com princípios e valores milenares: aceitar não é se render. Aceitar é parar de gastar energia brigando com o fato e começar a agir sobre o que é possível mudar. Isto é adquirir maturidade e sabedoria com a prática de qualidade (experienciação), isso é sair do automático e ativar o modo deliberativo – pensar de verdade. Por isso que desenvolver o pensamento crítico melhora todo o resto.
Falando em pensar de verdade...
Nietzsche tem uma citação que diz o seguinte: “A intensidade de uma crença não garante sua verdade, apenas revela a força psicológica ou afetiva de quem acredita.” É importante nos aprofundarmos neste contexto, pois a maioria das pessoas infelizmente confundem convicção com verdade.
Convicções não são provas - crer em algo não o torna verdadeiro, assim como as emoções e sentimentos despertados por algo que se acredita ou não, não são critérios para se estabelecer se este algo é verdadeiro ou não, se é algo certo ou errado. Tanto que existe a máxima que diz que não é porque todo mundo está fazendo algo (ou dizendo) que significa que “este algo” é verdadeiro ou certo. Da mesma forma que não é porque ninguém está fazendo algo (ou dizendo) que significa que “este algo” está errado. Inclusive isto é utilizado como estratégia de persuasão/manipulação da maioria da população que se encontra em baixo estágio de pensamento crítico (pensador irreflexivo) - a estratégia de repetir tanto uma mentira ou algo errado, até esta maioria irreflexiva acreditar que é verdadeiro e correto.
Por esta mesma maioria não fazer esta distinção entre convicção e verdade, elas ainda pioram esta situação problemática ao achar que, quanto mais forte ela acreditar em algo (quanto mais convicta ela for), mais verdadeiro aquilo será (ou se tornará)... Assim como achar que, quanto mais intensa for a emoção/sentimento despertado por algo, mas verdadeiro ou não aquilo será (ou se tornará). E esta maioria faz isso a ponto de achar, no mínimo, desnecessário pensar/questionar com mais qualidade a respeito – e assim esta maioria se torna cada vez mais escrava de uma prisão que ela sequer consegue enxergar.
E claro, tudo isso determina os comportamentos destas pessoas, moldando assim suas realidades. Por isso que a força/intensidade de uma convicção/crença diz muito mais sobre quem acredita do que sobre aquilo em que se acredita. Walter longo, exímio pensador crítico, diz que, na maioria das vezes “a boa mentira é mais dependente da vontade de acreditar por parte de quem a ouve do que da competência de mentir por parte de quem fala.” Justamente devido a falta de pensamento crítico
Dito isso, compreenda que a força/intensidade de uma convicção cognitiva e emocional pode coexistir com o mais grotesco dos erros e, inclusive, conduzir pessoas "inteligentes", mas munidas de falsas primícias - a cometer atrocidades... A história está repleta de exemplos de convicções/crenças ardentes promovendo e perpetuando injustiças e atos de violência, tanto individuais quanto coletivos. Onde a maioria irreflexiva substitui o pensamento de qualidade (o pensar de verdade) e se deixa levar por crenças - pelo psicológico e emocional. Compreenda que onde crenças e emoções sem questionamento de qualidade se tornam absolutas na condução de qualquer comportamento - o pensamento crítico já foi abandonado. Compreenda que nem toda "certeza" nasce da verdade...
Se a única justificativa que uma pessoa dá para fazer algo ou deixar de fazer algo se enquadra dentro deste conceito acima exposto (sem questionamentos de melhor qualidade), significa que ela faz parte desta maioria que se encontra no estágio de pensador irreflexivo – o mais baixo estágio do pensamento crítico.
Dito isso... É sinal de saúde?
O que está acontecendo com a sociedade (com as pessoas em geral), que aceitam muito mais facilmente mentiras em suas vidas e desconfiam piamente do que é verdadeiro? Já reparou!? O que faz com que o mundo acredite muito mais facilmente em mentiras do que em verdades? Já pensou com qualidade a respeito?
Você, que já despertou, sabe a resposta... Sabe o que nos falta... Mas enfim! Pensa comigo:
É sinal de saúde acreditar em mentiras de imediato, sem questionamentos de qualidade?
É sinal de saúde, sem fundamentação lógica, sensata, pacífica e de bem - duvidar, ignorar e condenar de imediato o que é verdadeiro, as verdades e quem as profere?
É saudável fazer tudo isso? O que você acha? É sinal de sabedoria ou estupidez? Qual a sua opinião?
O baixo grau de pensamento crítico da maioria, como observado há décadas por Paul e Elder, e cada vez mais validado por estudiosos do assunto ao redor do mundo, multiplica e perpetua uma cegueira generalizada, resultando em realidades distorcidas e deturpadas das mais variadas maneiras, cujo sintomas deste estado doentio e nocivo se manifesta das mais variadas formas, como por exemplo - pela normalização (e até adoração) do que as prejudica, do que é tóxico, de absurdos e barbaridades, do que é boçal... e por ai vai...
Esta mesma maioria acaba se distanciando do bem e abraçando cada vez mais o mal... Em outras palavras, se acostuma e se conforma com tudo o que lhe faz mal, e acha isso normal. Na verdade, normaliza o mal agindo em suas vidas, pois é mais fácil, rápido e cômodo sobreviver de ilusões e autoengano. Requer muito menos esforço e tempo quando comparado a lutar pela vida que verdadeiramente, lá no íntimo, vale a pena ser construída e vivida.
Como dizem: existir é diferente de viver. Há quem apenas passa pela vida, existindo... E, há quem experiencia cada passo ao longo dela com cada vez mais qualidade. Qual desses caminhos você está trilhando? Suas escolhas diárias estão te levando para qual deles?
Lembrem-se sempre: somos as escolhas que fazemos! Que a gente aprenda cada vez mais e cada vez melhor a escolher princípios e valores bons e do bem para nos guiar…
A importância das conexões e ambientes de crescimento
Ainda falando de princípios e valores, dentro do contexto de criar um conjunto, uma combinação que nos guie a melhores decisões, escolhas e condutas - ou seja, a dar melhores significados, ter melhores comportamentos, lidar melhor com o que quer que seja - para tudo isso, é de fundamental importância nos conectarmos a ambientes de crescimento. Ambientes que nos potencializem em vez de nos limitar.
Complementando, Adam Grant, em seu livro “Dar e Receber”, enfatiza como ambientes colaborativos – onde se pratica a generosidade recíproca – não só potencializam o crescimento individual, mas criam redes que elevam todos, incentivando-nos a escolher conexões que nos inspirem a ações melhores, em vez de nos limitarem a círculos estagnados. Como ele diria: ambientes bons são aqueles onde discordar não vira ataque, onde pensar diferente não vira ameaça, onde aprender não vira humilhação.
Me permita falar rapidamente da importância de nos conectarmos e convivermos com pessoas melhores que nós e, também cuidarmos de tudo que permitimos que nos influencie. Sabe aquela velha reflexão: Você não é apenas a média das pessoas com quem mais convive - você também é a média dos conteúdos que consome e de tudo o que você destina a sua atenção.
Na verdade, você é o resultado de tudo aquilo que você permite te influenciar, tenha você consciência disso ou não. Em outras palavras, uma “média” de tudo o que você consome de conteúdo, tanto proveniente de ambientes físicos ou digitais que você se expõe/conecta, quanto provenientes das pessoas presentes nestes ambientes, assim como de livros que escolhe consumir, entre tantas outras fontes de informação e estímulos mais...
Em resumo, somos o resultado das influências que escolhemos para nós, e de nossos comportamentos em relação a isso. Mais um ponto que o pensamento crítico se faz crucial para a criação de nossas realidades. Tudo isso nos molda de alguma forma. Ou seja - Você é o que é, e está onde está, por causa de tudo que você permite te influenciar. Você é o que é, e está onde está por causa das coisas que sabe, ou “acha” que sabe, e suas ações em relação a isso.
E aqui pergunto novamente: como está a qualidade de tudo com que você se conecta diariamente? E como está a qualidade de sua conexão com cada uma destas coisas que você escolhe se conectar?
E reforço: ter um bom repertório de princípios para nos guiar é como ter uma boa coleção de receitas para fazer melhorias, criar prosperidade em qualquer área da vida. Por isso, na minha percepção, se conectar a ambientes de crescimento é um dos primeiros princípios que acredito que todos deveriam adotar. O primeiro passo para qualquer objetivo, necessidade, sonho, desejo – ou seja - para qualquer busca que for de seu real interesse.
Se parar para pensar de verdade, este é um fato constatado na prática. Pessoas prósperas, em qualquer área da vida que a gente queira considerar, estão conectadas a ambientes de crescimento - que agregam valor e que potencializam. E isso pode ser reproduzido por qualquer pessoa que faça esta escolha e parta para a ação, independente das circunstâncias. E tanto fazer esta escolha quanto partir para a ação depende do nosso pensamento crítico.
Porque, no fim, é ele que decide se você vai existir como coadjuvante de uma história que te impuseram - ou como autor e protagonista da própria vida. Se você vai reproduzir o roteiro que te deram - ou cocriar o que te faz mais sentido e tem verdadeiro significado. Se você vai defender um ego - ou defender um futuro mais próspero.
Então, proponho uma última reflexão... Se pergunte: Como você está cuidando de seu corpo e da sua mente? Você está alimentando o seu corpo e sua mente com coisas saudáveis? Se nós nos tornamos aquilo que consumimos, mas a maior parte das coisas que consumimos são superficiais, ruins e inúteis - não espere uma vida muito diferente disso.
E como disse Gandhi (na ideia que ficou popularizada): “seja a mudança que você quer ver no mundo.” Mas aqui eu adiciono um detalhe alinhado com tudo isso que foi compartilhado: seja a mudança começando no único lugar onde ela realmente começa - na sua forma de pensar, interpretar, escolher e agir – mergulhe no oceano de si mesmo, pois só assim você verdadeiramente se encontrará...
Marcelo Tempesta, PhD


