O princípio da humildade
Aquilo que a maioria julga ter, mas a minoria realmente tem...
Marcelo Tempesta, PhD
2/16/202619 min read


De que grupo você faz parte?
Peço licença — e agradeço a sua compreensão — pela redundância da frase que utilizarei a seguir. Começo esta reflexão reforçando um ponto crucial que continuarei sempre enfatizando: o óbvio precisa sempre ser reforçado, pois constantemente ele é ignorado.
E eu não digo isso como quem repete um chavão. Digo como quem olha para a vida real e percebe um padrão quase irritante: os óbvios da vida têm poderes transformadores, mas são ignorados pela maioria… justamente porque a maioria se deixa dominar por comportamentos de baixo grau de pensamento crítico.
Aqui, vale lembrar um “óbvio” que Sócrates tratava como fundamento: uma vida não examinada não merece ser vivida. E o que ele queria dizer, em termos práticos, é desconfortavelmente simples: muita gente vive como se a própria mente fosse um lugar onde não vale a pena entrar. Vive no piloto automático, repetindo crenças, justificativas e rotinas sem se questionar de verdade... Vive em um estado reativo, sem verdadeira autonomia e autenticidade — e depois se surpreende negativamente com os resultados - que são consequências da somatória de suas próprias escolhas.
Inclusive, como visto em outros momentos, segundo Paul e Elder, referências no assunto há décadas, a maioria das pessoas passa suas vidas inteiras sobrevivendo no grau mais baixo estágio de pensamento crítico, que é o do pensador irreflexivo. Consequentemente, colhendo frutos negativos — ou não tão bons quanto realmente gostaria. Por que insistimos tanto em ignorar o óbvio se ele é a chave para frutos melhores?
E antes de irmos adiante, perceba a ironia - Se a causa é “pensar mal”, a solução não é “pensar mais do mesmo”, é aprender a pensar melhor – pensar de verdade, por si e com mais qualidade.
Mas voltando a falar de óbvios, vamos recapitular uma linha de raciocínio, adicionando um tema que abordamos recentemente e que faz toda a diferença do mundo: a habilidade crítica da humildade — palavra cujo significado é amplamente distorcido, mal interpretado e experienciado pior ainda...
A maioria confunde humildade com “se diminuir”. Só que os antigos, especialmente os estoicos, apontavam outra direção. Para Epicteto, o começo da sabedoria é quando a pessoa para de fingir que sabe. E isso é mais profundo do que parece, porque “achar que já sabe” é uma prisão confortável: você não precisa mudar, não precisa treinar, não precisa revisar nada. Você só precisa – defender ferozmente a inveracidade da ilusão que escolheu acreditar...
Para Platão, a humildade é o primeiro passo para ascender à verdadeira sabedoria, reconhecendo que o que julgamos "já saber" pode ser ilusão. Parafraseando - sem humildade, ficamos presos na caverna, ignorando verdades transformadoras que estão ao nosso alcance.
Complementando esta linha de pensamento, o neurocientista Pedro Calabrez, em suas palestras sobre neurociência aplicada ao comportamento, enfatiza como a humildade ativa circuitos neurais de aprendizado, reduzindo assim a rigidez sináptica que nos faz ignorar o óbvio. Ele explica que, ao cultivarmos humildade intelectual, liberamos dopamina em padrões que incentivam a curiosidade, em vez de defesa egóica, permitindo que vejamos o óbvio não como banal (ou ameaça), mas como um portal para crescimento.
Essa conexão nos provoca a questionar o seguinte: e se sua relutância (teimosia ou medo) em admitir suas próprias limitações for o que está bloqueando sua evolução – mudanças e melhores resultados? Lembre-se sempre: “Cuide para que a inflexibilidade de suas convicções não te impeça de construir e desfrutar de uma vida mais próspera.”
Humildade, então, não é fraqueza. É coragem cognitiva: a coragem de olhar para si e admitir que a sua mente pode estar errando — e que talvez esteja errando há muito tempo... No momento, o único ponto que quero tocar sobre isso é que só melhorando o nosso grau de humildade é que começamos a não ignorar os óbvios transformadores de vida.
E aqui entra uma ponte moderna da neurociência e da psicologia cognitiva comportamental: o cérebro é econômico, ele tem a tendência de sempre buscar poupar tempo e energia, ou seja, ele adora atalhos e facilidades. O piloto automático não é defeito — ele é parte de nossos mecanismos de funcionamento – de uma complexa estrutura organizacional do corpo e mente de todo ser humano. Só que o problema começa quando você, consciente ou inconscientemente, implementa e cativa atalhos prejudiciais/negativos e os transforma em rotina e destino...
Daniel Kahneman descreve isso com muita precisão quando mostra que temos um modo mental rápido, intuitivo, automático (o famoso “Sistema 1”) e um modo mais lento, analítico, deliberativo (o famoso “Sistema 2”). O ponto chave é: o Sistema 2 não “vive ativo”, atuando de forma contínua. Ele se ativa quando você decide pagar o custo de pensar de verdade. E esse custo é real: requer gasto adicional de energia e tempo, ou seja, dá mais trabalho, dá preguiça, é desconfortável, incomoda...
Pedro Calabrez costuma reforçar algo nessa linha de raciocínio: mudança exige consciência e repetição, porque o cérebro tende a repetir o que já está “bem instalado/programado/cativado”. Ou seja: você pode até querer uma vida nova — mas, se continuar alimentando o mesmo circuito mental, vai continuar fazendo as mesmas escolhas, reproduzindo os mesmos padrões comportamentais e, consequentemente, tendo os mesmos resultados.
E é aqui que entra o principal (e crucial) pilar trabalhado pela filosofia Tempestando: o poder do significado de qualidade. É o significado atribuído a qualquer coisa que queira considerar que determinará se este “custo” representará um gasto (desperdício/perda) ou um investimento (ganho). Mas este é um outro assunto.
A essencialidade de se desconectar do que não é bom e do bem
Feita esta introdução, vamos reforçar alguns pontos que sempre foram e serão essenciais para todos que buscam se tornar uma melhor versão de si mesmo, pois já sabem que só assim é possível construir melhores realidades de forma significativa e duradoura.
Quando buscamos por algo novo, muitas vezes temos que, antes de qualquer coisa, nos desconectar do velho, do antigo, do obsoleto — nos desconectar do que não nos serve mais, do que nos prejudica, nos faz mal.
Isso é um tipo de “desapego” que muita gente romantiza, mas que na prática é desafiador e doloroso: desapegar de hábitos, de crenças, de certezas, de narrativas, de ambientes e, principalmente, de identidades que não representam a nossa – e para isso, primeiro é preciso conhecer a si mesmo.
Sêneca já disseminava isso ao sugerir que uma vida melhor não nasce só do que você adiciona — mas do que você interrompe. Há coisas que não precisam de mais motivação; precisam de fim. Precisam do “basta”, do “chega”, do ponto final...
E Marco Aurélio, do alto de uma posição em que ele poderia se dar qualquer desculpa, insistia consigo mesmo: “não perca mais tempo discutindo o que é um bom homem; seja um.” Note como isso bate direto no ponto desta reflexão: não é sobre saber. É sobre agir. E, antes de agir melhor, muitas vezes é sobre parar de agir do jeito errado. E para isso, novamente é preciso conhecer a si mesmo mais profundamente.
Muitas vezes precisamos desapegar de certas crenças antigas (conjunto de coisas que escolhemos acreditar e não acreditar) que tanto nos limitam, para dar espaço a coisas novas que nos potencializam nos mais variados sentidos… Muitas vezes, antes de nos conectarmos com o que quer que acreditamos que nos fará melhor, temos que nos desconectar do que nos prejudica. Caso contrário, o que fazemos de bom é neutralizado pelo que fazemos de mal – o famoso “comportamento soma zero”. Simples assim, mas apesar de simples, desafiador.
Aproveite o momento e se pergunte: para que lado está pesando esta sua balança?
Desapegar do velho requer humildade para reconhecer que crenças antigas, mesmo confortáveis, são opiniões mutáveis, não fatos imutáveis. Isso nos liberta para escolhas mais intencionais. E cabe apenas a cada um tomar esta decisão ou não...
Adam Grant, psicólogo organizacional e autor de "Dar e Receber", classifica as pessoas em três estilos principais de interação social e profissional, com base em como elas lidam com dar e receber ajuda, favores ou recursos no ambiente de trabalho e na vida cotidiana. Esses estilos são baseados em pesquisas e estudos que ele apresenta, mostrando como eles impactam o sucesso, as relações e o bem-estar.
· Doadores (Givers): São pessoas que priorizam ajudar os outros sem esperar retribuição imediata. Eles compartilham conhecimento, tempo ou recursos de forma generosa, focando no bem coletivo. No contexto mencionado, Grant sugere que os doadores cultivam humildade, o que os torna mais abertos a desapegar de ideias antigas e se conectar com novas oportunidades ou mudanças, mesmo em ambientes desafiadores.
· Receptores (Takers): São indivíduos que tendem a priorizar seus próprios interesses, tentando obter o máximo possível dos outros enquanto contribuem o mínimo. Eles veem as interações como uma forma de ganhar vantagens pessoais, muitas vezes explorando relações. No contexto da nossa reflexão, em ambientes tóxicos, os receptores se "prendem a crenças limitantes por medo de mudança" porque seu foco egoísta os torna relutantes (inflexíveis/fechados) a riscos ou novidades que possam ameaçar seu “status quo”.
· Combinadores (Matchers), que operam no princípio de reciprocidade: eles dão na medida em que recebem, buscando equilíbrio e justiça nas trocas.
Em suma, Grant é mais uma mente (entre tantas outras) que nos inspira ao dizer que, quando nos desconectamos do prejudicial, criamos redes que potencializam, mas só se escolhermos percorrer o caminho com humildade, e não com rigidez/inflexibilidade.
Se pergunte: o que você ainda carrega que te impede de crescer, melhorar, evoluir? Mas responda como protagonista de sua vida, exercendo a autorresponsabilidade, ou seja, sem terceirizações.
Platão, de certo modo, já apontava isso quando colocava o ser humano preso às sombras da própria percepção — e o desconforto de sair da caverna não é apenas “ver a luz”, é aguentar o choque de descobrir que você estava enganado e, principalmente, aceitar. A maioria não foge da luz por falta de capacidade. Foge por falta de humildade. Foge porque a verdade cobra um preço: assumir o desconforto e a responsabilidade de mudar – e qualquer mudança só acontece após a aceitação... E poucos se permitem passar por este processo, justamente por falta de verdadeira humildade.
Pegando o gancho das reflexões Tempestando anteriores sobre princípios: por mais básico e óbvio que tudo o que foi dito possa parecer, este é mais um óbvio para jogar na cova de óbvios que a maioria das pessoas continua ignorando, das mais variadas formas, pelos mais variados motivos. Por exemplo, um dos princípios que comentei em reflexões anteriores: o de se conectar a ambientes de crescimento, que nos potencialize em vez de nos limitar. Mesmo isso sendo algo óbvio, a maioria das pessoas insiste, teima, permanece e continua escolhendo ambientes tóxicos.
Napoleon Hill, em "Pense e Enriqueça", reforça este óbvio transformador de vidas com o conceito de "Mastermind" – grupos de mentes mais preparadas e elevadas que aceleram o crescimento e evolução do todo. Hill explica que ambientes tóxicos perpetuam vitimismo (entre tantos outros comportamentos negativos) porque reforçam crenças limitantes, enquanto conexões intencionais com mentes afins criam harmonia vibracional e comportamentos de melhor qualidade para o progresso e prosperidade Hill nos provoca: "Sua mente é influenciada pelo ambiente; escolha-o com sabedoria ou sofra as consequências"
E aqui eu faço uma provocação bem direta: se o ambiente te puxa para baixo e você continua lá, a pergunta não é mais “por que o ambiente é assim?”, a pergunta é “por que você aceita, se conecta?”
Outra provocação: qual o peso exercido pelos ambientes com que você se conecta/frequenta, em suas tomadas de decisões, escolhas e condutas? O quanto de seus ciclos viciosos e automatismos maléficos não são alimentados e fortalecidos por estes ambientes?
Adam Grant fala muito bem sobre cultura, influência social e sobre como pessoas e sistemas moldam comportamento – a famosa “ambiência”. Na prática, isso significa que você pode ter uma excelente intenção — mas se você fica cercado de cinismo, mediocridade, vitimismo, entre tantas outras coisas negativas mais, você vai precisar ser mil vezes mais consciente para não ser contaminado, drenado, dominado.
O ambiente exerce fortíssima influência sobre todos nós... Ele pesa absurdamente na balança de nossas tomadas de decisões, escolhas e condutas... E, infelizmente, a maioria das pessoas subestima/menospreza esse poder de influência, este peso... Justamente por isso a maioria não vive a vida que verdadeiramente, lá no íntimo, gostaria de viver. Justamente por isso a maioria não tem o controle de suas próprias escolhas – pois quem manda é o ambiente... “Ele é o seu dono – te domesticou e você nem percebe.”
E aí entra outro ponto trabalhado por Kahneman: nós não somos “seres racionais que às vezes sentem” - somos seres emocionais que racionalizam - e muitas vezes, somos “seres influenciáveis que depois racionalizam”. A pessoa fica em ambientes que a adoece e, em vez de admitir “eu escolhi mal”, ela cria uma história bonita para justificar: “é família”, “é minha turma”, “eu sou leal”, “eu aguento”, entre milhões de outras “justificativas”...
Só que crença, convicção, lealdade que é nociva e te destrói não é virtude – é vício! Portanto, mais uma vez, cuide para que a inflexibilidade de suas convicções não te destrua...
Mesmo com tantas mentes de referência e renome enfatizando o quanto é essencial e poderoso várias coisas óbvias ao longo de toda nossa existência - mesmo com a prova do tempo - as pessoas continuam escolhendo ignorar óbvios transformadores de vida das mais variadas maneiras.
E após ignorar, se limitam a reclamar, criar desculpas e terceirizar culpados, fechando assim ciclos viciosos repletos de automatismos maléficos, como o do vitimismo e consequentes comportamentos negativos que tanto nos distancia de uma vida melhor. Sem um despertar, ficamos cada vez mais submissos, prostrados e reféns do ritmo hipnótico.
Sêneca diria, com cruel elegância, que muita gente não é “infeliz por causa do destino”, mas por causa do hábito de interpretar tudo como injustiça pessoal. E os estoicos são quase impiedosos nesse ponto: eles não negam a dor/sofrimento, não negam as dificuldades, mas sim, insistem que o que decide o rumo da vida é o que você faz depois do impacto. "Enquanto permitires que alguém te escravize, serás escravo". E este alguém, na maioria das vezes, é a nossa própria mente – é ela quem cria as piores prisões.
Você percebe que tudo isso converge para um mesmo ponto? Para a atribuição de significados de qualidade... Mas, sem a verdadeira humildade não é possível aprimorar este “superpoder”. A solução: melhorar nosso pensamento crítico, pois é nele onde está a origem de tudo. E reforço: esta é uma escolha que ninguém pode fazer por nós, além de nós mesmos.
E como muitos sabem, não basta apenas saber. Temos que aprender a executar cada mais e cada vez melhor! Não basta apenas ter conhecimento do óbvio, temos que praticá-lo, treiná-lo, aprimorá-lo – transformá-lo em automatismos benéficos – em padrões comportamentais mais positivos, construtivos e produtivos.
Na verdade, isso serve pra tudo. Como dizia Johann Goethe: “Saber não é suficiente, devemos aplicar. Querer não é suficiente, devemos fazer.” Neste ponto, devido a relevância deste óbvio, cito uma frase de Marco Aurélio para um endosso final: o que você sabe e não pratica não é sabedoria – é enfeite. E enfeite, por mais belo ou melhor que pareça, não sustenta uma vida. "Não desperdice mais tempo discutindo o que um bom homem deve ser. Seja um". Ele reflete sobre a prática diária como essência da virtude, onde o pensamento crítico se manifesta em ações consistentes, não em meras intenções.
Em outras palavras, o óbvio vira transformador quando executado, superando a inércia do saber sem fazer (a famosa obesidade mental). Parafraseando Bob Proctor, grande mentor de desenvolvimento pessoal: o conhecimento é potencial; a ação é poder. Baseado em princípios quânticos e mentais, ele explica que repetição prática reescreve paradigmas subconscientes, transformando o óbvio em hábitos automáticos benéficos, claro, considerando que estamos falando de coisas boas.
Napoleon Hill e Bob Proctor, cada um no seu estilo, bateram muito nessa tecla: a diferença entre o desejo e a realização mora na disciplina de transformar intenções em hábitos. E dá pra dizer isso sem misticismo: o cérebro aprende por repetição – e disciplinar a mente para a execução é o que um melhor pensamento crítico faz! Você não “vira” disciplinado por entender disciplina. Você vira disciplinado por praticar... Não é sobre ter disciplina para praticar – é sobre praticar para ser disciplinado! Ou seja, somos disciplinados naquilo que praticamos todos os dias...
Percebe que a maioria inverte esta ordem? As pessoas romantizam e distorcem o significado de disciplina... Dizem não ser disciplinadas para praticar determinada ação, quando, na verdade, é a prática que disciplina uma pessoa. Captou!? A prática vem antes da disciplina! Ou seja, não é ter disciplina para praticar algo, mas sim, praticar algo para ter disciplina.
Este é mais um belo exemplo para enfatizar a importância e o poder da atribuição de significados ao que quer que seja... Isso nos estimula a pensar: por que sabemos tanto e aplicamos tão pouco, se a execução é o que molda a nossa realidade? Já dei a resposta neste mesmo parágrafo...
Por isso sempre reforçarei que 90% do êxito em qualquer área da vida que a gente queira considerar está em nossos comportamentos – na gestão de significados de qualidade para desenvolvermos um poder de execução cada vez melhor.
Falando em reforçar... Saiba que você não sabe de tudo (e nem eu)
Voltando a alguns óbvios sobre princípios e valores: definir com consciência e autenticidade o nosso repertório de princípios e valores para nos guiar a melhores tomadas de decisões, escolhas e condutas é extremamente importante, pois este repertório nos afeta todos os dias, todas as áreas de nossas vidas, em seus mais variados aspectos.
Infelizmente, mesmo este repertório impactando absurdamente na criação da nossa realidade, é mais um óbvio que a maioria escolhe ignorar — ou “acha” que já sabe... E aqui, aproveito para citar também o efeito Dunning-Krueger... Fica o convite para “dar um google” (google it) – expressão que hoje está mudando por conta das Inteligências Artificiais (Ias). Mas este é outro assunto...
Voltando ao tema central, provoco um incômodo necessário: você chama de “princípio e valores” aquilo que você defende… ou aquilo que você pratica? Pergunto, pois a maioria das pessoas tem princípios e valores declarados, mas quem governa a vida desta mesma maioria são impulsos, medos, conveniências e vícios. Percebe a incoerência, a insensatez? Comportamentos estes fruto de um baixo grau de pensamento crítico.
Aproveito para trazer à tona a questão de que saber é fazer, que algumas mentes pregam. Se você julga saber algo, mas não executa da forma que gostaria – é por conta de algo que você ainda não sabe, mas que a qualquer momento pode decidir aprender. E para que isso aconteça, como já exaustivamente mencionado – é preciso humildade. Inclusive, este é um dos nossos maiores desafios, como mencionado em outros Tempestandos: ter coerência entre pensamento, sentimento e ação. Confirmar nossas palavras com ações.
Se fosse fácil, por exemplo, todos teriam disciplina e foco para ter uma vida mais saudável e próspera em seus mais variados aspectos, mas não é bem isso que acontece, não é mesmo!?
Kahneman nos ajuda nesta questão com uma noção simples: a gente superestima o “eu racional” e subestima o “eu automático”. A pessoa diz “eu quero mudar”, mas na hora decisiva ela não muda porque a decisão não foi estruturada para vencer o automático. Ela não organizou ambiente, rotina, gatilhos, compromissos, métricas considerando a sua verdadeira identidade – o seu jeito único de ser, agir, pensar e sentir. Ela sequer conhece a si mesma, verdadeiramente. Ela apostou tudo na “força de vontade” – e força de vontade é um recurso limitado.
Por isso, ter um repertório de princípios e valores, bem definido e claro em nossa mente, é um dos principais pilares que nos ajuda a lidar muito melhor com os desafios que a vida nos apresenta e a melhorar o que for de nosso real interesse e necessidade. Ignorar este óbvio é escolher se deixar ser conduzido por comportamentos de baixo grau de pensamento crítico. É se limitar pelas barreiras mentais construídas pela rigidez mental, pela inflexibilidade de nossas convicções. Pela rigidez do “achar” que já sabemos ou que já fazemos com maestria... Pela rigidez do orgulho e ego exacerbado... Pela rigidez do baixo grau de humildade.
E aqui eu quero dar um nome direto para isso: arrogância funcional. Nem quero falar daquela arrogância evidente ou escandalosa... Quero alertar para a arrogância silenciosa de quem diz “já sei” – e por isso não treina, não revisa, não se observa, não mensura, não pede feedback, não muda... E por isso, por exemplo, replica a atitude de dizer que lhe falta disciplina, mas utiliza esta frase de forma “distorcida”, como válvula de escape, como fuga, como regulador emocional para dores das quais não quer se auto responsabilizar, dos preços que não está disposto(a) a investir...
Percebe mais uma vez a importância de uma melhor gestão de significados!? É a essência de tudo...
Seja um(a) repensador(a)
Adam Grant costuma reforçar a importância de ser um “repensador” (repensar é uma das habilidades do pensamento crítico). Grant explica que princípios e valores não são regras rígidas imutáveis, mas bússolas flexíveis que exigem prática para navegar os desafios de um mundo de constantes mudanças, cada vez mais velozes, impactantes e disruptivas.
O que acontece então quando sua rigidez te impede de alinhar seu conjunto de princípios e valores, com suas ações – para lidar com todas estas mudanças do mundo e impactos no seu dia a dia? Já parou para repensar sobre a qualidade de seus comportamentos? Para onde eles estão te levando? Em direção a vida que tanto deseja – ou te distanciando dela? Em direção a uma vida mais próspera ou de escassez?
Trazendo novamente Sócrates para esta conversa, ele afirmava que conhecimento é virtude, mas só se manifestada em ações coerentes – incoerência comportamental é ignorância disfarçada. Platão complementa esta reflexão por considerar que princípios (e valores) bem definidos são como leis internas que guiam a alma à harmonia.
Kahneman, referência mais moderna, nos mostra como a rigidez mental (ancoragem em crenças antigas, obsoletas, distorcidas...) nos conduz a péssimas decisões – nos faz ignorar e ferir princípios e valores óbvios. Em seus estudos, ele nos evidencia e alerta sobre como vários vieses nos prendem a incoerências comportamentais. Dito isso, ter um conjunto de princípios e valores bem definidos e claros em nossa mente ativa o nosso famoso Sistema 2 – aí sim conseguimos exercer uma melhor coerência e sensatez comportamental – aí sim conseguimos executar cada passo do processo de pensamento crítico com mais consciência e qualidade.
Saiba que maturidade e sabedoria não é sobre defender crenças com mais energia, paixão, fervor, intensidade. É sobre conseguir atualizá-las com mais honestidade. E isso casa com humildade, que no fim, carrega em seu verdadeiro conjunto de significados - a capacidade de atualização.
Seja fiel a si mesmo!
Para finalizar esta série de reflexões sobre princípios e valores, vamos novamente enfatizar:
Quando não temos princípios e valores bem definidos e claros em nossa mente, nos distanciamos cada vez mais de tudo o que gostaríamos que melhorasse, em qualquer área da vida. O mesmo acontece quando temos, mas os ferimos...
Nós ferimos nossos princípios e valores sempre que nossos comportamentos não condizem com eles – quando o pensar, senti e agir não estão alinhados, em hamonia... Em outras palavras: de acordo com os princípios e valores que você escolheu para si, você deveria agir de determinada forma, mas acaba agindo diferente – e muitas vezes fazendo o oposto do que deveria, do que gostaria ou do que verdadeiramente, lá no fundo, acredita...
Isso acontece tanto para coisas pequenas e corriqueiras do dia a dia, quanto para objetivos mais grandiosos, de forma consciente ou inconsciente. E, se você for honesto consigo, vai perceber um detalhe desconfortável: quase sempre você sabe exatamente quando está ferindo seus princípios e valores. O corpo sente. A consciência acusa. A mente se inquieta. É nesse instante que a vida te testa – te coloca a prova...
Marco Aurélio diria algo como: você sempre tem a chance, agora, de agir conforme a sua natureza mais elevada. Os estoicos chamariam isso de virtude. O mundo moderno chama de integridade. Mas a essência é a mesma: ser a pessoa que você diz que quer ser, sobretudo quando ninguém está vendo.
Quando nossos comportamentos não condizem com nossos princípios e valores, estamos ferindo-os – e feri-los é ferir a nós mesmos, além de poder ferir outros a nosso redor. Simples assim... Mas apesar de simples – desafiador.
Falando em desafiador, deixa eu dar um exemplo inquestionável de princípios e valores, que a maioria dos que dizem ter, os ferem todos os dias, e muitas vezes sem sequer perceber: o contexto do “amar o próximo como a si mesmo”, de “não fazer ao próximo aquilo que não queremos para nós”...
Se nós seguíssemos só um pouquinho mais os princípios e valores que o contexto destas frases carrega – nossas vidas e o mundo seriam bem melhores... E claro, assim como para tudo que falamos até agora – isso requer muita humildade verdadeira e profundidade...
Quer um outro exemplo: parafraseando uma famosa frase de Madre Teresa de Calcutá – as mãos que ajudam são mais sagradas do que os lábios que rezam – No geral, comportamentos importam mais que palavras... Por que “pregamos” tanto, mas pouco fazemos quando comparado ao tanto que “pregamos”? Como já mencionado, um dos maiores desafios de todos nós, seres humanos, é fazer nossas ações confirmarem nossas palavras...
Aproveito para fazer uma provocação mais profunda: se as pessoas ferem a si mesmas, como não ferir o próximo? Se as pessoas não respeitam a si mesmas, como respeitar o próximo? Se as pessoas mentem para si mesmas, como não mentir para o próximo? Se as pessoas não sabem amar a si mesmas, sequer se conhecem de verdade – como conseguirão amar o próximo? Como querer ter (e sustentar) comportamentos coerentes com o contexto representado por estas frases acima citadas, sendo que a maioria das pessoas trai a si mesma? Mas este é um assunto para nos aprofundarmos em outras circunstâncias...
Te aprecio por ter chegado até aqui...
Resumindo, definir bons princípios e valores, e atualizá-los sempre que necessário, assim como seguir cada um deles com comprometimento – honrá-los – dando sempre o seu melhor para não os ferir, requer um melhor desenvolvimento do nosso pensamento crítico. Lembrando que uma das habilidades-chave para seu aprimoramento é justamente a humildade intelectual.
Como mencionei anteriormente, isso serve tanto para as atividades mais simples que a gente possa imaginar, quanto para as mais complexas ou grandiosas. Ou seja, serve pra tudo!
Para melhorar a qualidade da nossa conexão com nossos princípios e valores é necessário melhorar nossos processos de análise, interpretação e tirada de conclusões, assim como melhorar nossos processos de atribuição de significados e ressignificação – pois a qualidade com que a gente passa por cada passo destes processos determina a qualidade de todo o resto – a qualidade da nossa gestão emocional e comportamental – do nosso poder de execução.
Tudo isso requer prática! Tudo isso é treinável... E aqui eu resgato uma ideia que atravessa séculos: você não muda a vida “pensando bonito”. Você muda a vida treinando o que pensa, treinando como escolhe, treinando como age...
Você não se torna forte por admirar a força – você se torna forte por treino. Aliás, o treino é uma das atitudes mais importantes para atingir êxito e excelência em qualquer área da vida. O sucesso é treinável, a prosperidade é treinável, a felicidade é treinável…
Cada uma dessas palavras envolve contextos relativos… Temos diferentes graus de sucesso, diferentes graus de prosperidade, diferentes graus de felicidade… Não é “tenho ou não tenho”, “sou ou não sou”... Vai muito além disso – como diria Walter Longo: “As pessoas não são, as pessoas estão”. Mas este já é mais um outro assunto, para um outro momento...
Portanto, comece a trabalhar melhor no seu repertório de princípios e valores e sinta a mágica acontecer. Você já percebeu que o que transforma não é a informação/conhecimento. É a conversão da consciência em conduta. É quando você para de só “concordar” com o que é certo e começa a viver o que é certo.
Lembre-se sempre: somos a somatória das escolhas que fazemos.
Até a próxima!
Marcelo Tempesta, PhD


