Não seja a pessoa que só vê o que quer
As sombras do pensamento e dos automatismos maléficos
Marcelo Tempesta, PhD
12/22/20259 min read


Além do que enxergamos e achamos...
Falando em escolhas e de possíveis condutas em consequência destas escolhas, quero citar dois tipos de vieses comportamentais que podem nos prejudicar muito se não estivermos com a mente aguçada. Existem muitos outros, mas estes dois vieses podem nos alienar a ponto de nos fazer acreditar que realmente estamos fazendo uma escolha que é nossa, quando, na verdade, estamos apenas como marionetes da desinformação e da falta de esforço.
Essa condição reflete o que o neurocientista e ganhador do prêmio Nobel, Daniel Kahneman, descreve como o domínio do "Sistema 1". Esse sistema é rápido, instintivo e emocional, operando de forma automática e com pouco ou nenhum esforço voluntário. Quando reagimos sem pensar, estamos entregando o controle da nossa vida para esse mecanismo ancestral que busca apenas poupar energia e evitar desconfortos emocionais dos mais variados tipos, por meio das mais variadas compensações cognitivas.
Em outras palavras, estamos apenas reagindo automaticamente a algum estímulo, sem gastar muita energia para pensar de verdade – com mais qualidade. É quase um ato reflexo, como um gatilho que, ao ser acionado, ativa toda uma programação de comportamentos automáticos padrões. Por isso dizemos que aquele que não domina a própria mente não domina a própria vida..
Epicteto, filósofo estoico, já nos alertava sobre isso ao dizer que não são as coisas que nos perturbam, mas sim o julgamento que fazemos delas; quando não questionamos esses julgamentos, tornamo-nos escravos das nossas próprias impressões imediatas e da superficialidade de suposições e achismos. Motivo este que a Tempestando enfatiza tanto o poder da atribuição de significados de qualidade ao que quer que seja. Pois é a partir dele que é determinada a qualidade tanto de nossa conexão, quanto de nossas possíveis atitudes em relação a isso.
Assim como outros pensadores estoicos, ele nos provoca a questionar se estamos realmente escolhendo ou apenas deixando que percepções superficiais e automáticas nos controlem, transformando-nos em escravos de impressões não examinadas, assim como portadores de opiniões rasas, fúteis e distorcidas. Essa ideia se conecta diretamente à nossa tendência de reagir sem reflexão, nos convidando a pausar e discernir o que é verdadeiramente de nosso controle – não os eventos externos, mas como os interpretamos.
Lentes distorcidas e os vieses de confirmação e desejabilidade
Voltando ao assunto e falando de forma simples e resumida, o primeiro viés que quero compartilhar é o viés da confirmação. Nele, a pessoa só vê o que espera ver, buscando ativamente apenas informações que validem suas crenças pré-existentes. O segundo é o viés da desejabilidade, onde o indivíduo só vê o que quer ver, moldando a realidade para que ela se ajuste aos seus desejos pessoais, ignorando fatos desconfortáveis. Inclusive, estes vieses estão entre os principais geradores da dissonância cognitiva e paralaxe cognitiva, mas este é um outro assunto.
De qualquer forma, em ambos os vieses, o que for diferente do que a pessoa espera e deseja – a pessoa ignora das mais variadas formas, não aceita e entra em conflito. E isso é sintoma de baixo grau de pensamento crítico.
Como explica o professor Pedro Calabrez, nosso cérebro não foi projetado pela evolução para explorar e encontrar a "verdade" absoluta, mas sim para garantir nossa sobrevivência e aceitação social (pertencimento). Por isso, tendemos a filtrar a realidade de forma que ela nos pareça segura e familiar. Em ambos os casos, o que for diferente do que se espera ou deseja - é ignorado ou combatido, gerando um conflito desnecessário com a realidade.
Reforçando - isso é um sintoma claro de baixo grau de pensamento crítico e de uma mente que permanece na "Caverna" descrita por Platão. Nesta alegoria, os prisioneiros acreditam que as sombras projetadas na parede são a única realidade existente. Quem sofre desses vieses prefere o conforto das sombras familiares do que o esforço — e a dor inicial — de sair para a luz e encarar a verdade como ela é.
Kahneman explora isso profundamente em seu livro “Rápido e Devagar”, onde descreve o Sistema 1 de pensamento – que é rápido, intuitivo e propenso a erros como esses vieses – versus o Sistema 2, que é lento, deliberado e requer esforço. Ele nos alerta que, sem ativar o Sistema 2, caímos em armadilhas como o viés de confirmação, onde buscamos evidências que reforcem nossas crenças pré-existentes, ignorando todo o resto que as contradiz. Kahneman vai além, explicando que isso não é mera preguiça mental, mas uma economia evolutiva do cérebro, que prefere o caminho de menor resistência. No contexto de nossas escolhas diárias, isso significa que, se não questionarmos ativamente, perpetuamos ciclos de decisões ruins, como em carreiras estagnadas, relacionamentos tóxicos, entre tantos outros exemplos onde vemos apenas o que confirma nossa "realidade" desejada.
A inteligência como arma contra a verdade
Como abordado no livro Pense de Novo, de Adam Grant, assim como em muitos outros estudos, esses dois vieses não apenas nos impedem de usar a inteligência, eles são capazes de transformá-la em uma arma contra a verdade. Sim, isso mesmo! Uma mente brilhante, quando cativa desses mecanismos, usará toda a sua capacidade lógica para justificar o erro e construir argumentos sofisticados que sustentem suas ilusões.
Por isso existe a seguinte frase, que serve como um alerta vital: Nada é mais perigoso do que uma premissa errada nas mãos de uma pessoa inteligente. Ou - nada é mais perigoso que uma pessoa inteligente munida de falsas premissas. Inclusive, este é mais um motivo que reforça que inteligência é diferente de sabedoria. Como diria Sêneca, o conhecimento sem sabedoria é apenas uma forma mais complexa de tolice. Ele nos lembra que o perigo reside em premissas não questionadas, que nos mantêm presos em vieses, impedindo o crescimento. Ele nos inspira a cultivar a virtude da sabedoria, que vai além da inteligência bruta, exigindo coragem para confrontar nossas próprias falácias
Em outras palavras, inteligência é a ferramenta, mas a sabedoria é a bússola que define a direção. Sem a sabedoria de discernir o que é real do que é projeção, a inteligência apenas nos torna melhores tanto para nos auto enganarmos, quanto sermos enganados.
Grant, aliás, nos estimula a "repensar" nossas convicções, argumentando que a verdadeira inteligência surge não da certeza, mas da humildade de admitir que podemos estar errados. Ele parafraseia o físico Richard Feynman ao dizer que o primeiro princípio é não se enganar a si mesmo – e você é a pessoa mais fácil de enganar.
O triste, como aponta Grant, é que raramente nos damos conta das falhas que isso gera em nosso raciocínio. E a palavra triste é para amenizar, frente a vários outros adjetivos que poderíamos usar no lugar, ainda mais vendo o que está acontecendo no mundo como um todo... Vivemos em uma era de excesso de informação e escassez de discernimento e interpretação de contextos. A falha está na falta de bom senso, nas percepções distorcidas e na atribuição de significados errados e/ou de baixa qualidade, que afetam negativamente nossas tomadas de decisões, escolhas e condutas. Ou seja, afetam negativamente a construção de melhores realidades. Parafraseando Bertrand Russell: "O problema do mundo de hoje é que as pessoas sábias estão cheias de dúvidas, enquanto as ignorantes estão cheias de certezas."
Marco Aurélio reflete sobre isso em suas "Meditações", onde escreve: "Tudo o que ouvimos é uma opinião, não um fato. Tudo o que vemos é uma perspectiva, não a verdade." Ele nos provoca a examinar nossas premissas com rigor, sugerindo que uma mente inteligente, quando ancorada em percepções distorcidas, pode construir castelos de ilusões que nos isolam da realidade. Imagine isso aplicado ao desenvolvimento pessoal e profissional: quantas vezes usamos nossa inteligência para justificar procrastinação ou evitar mudanças, armando argumentos sofisticados contra a verdade incômoda de que precisamos evoluir?
A solução para este problema, a cura para este mal – é o desenvolver de um melhor pensamento crítico!
O perigo do "eu sei" e o desafio do desaprender
Aproveito para citar a frase atemporal de Galileu Galilei que resume bem o cenário atual e tem íntima relação com o pensamento crítico: "De todos os ódios, nenhum supera o da ignorância contra o conhecimento". Faço um convite para que cada um de nós reflita sobre isso, repensando nossos comportamentos diários. Quantas vezes ignoramos a oportunidade de aprender algo novo por acreditarmos que já sabemos o suficiente sobre determinado assunto? Quantas vezes pronunciamos a frase mais perigosa de todas: "Eu sei..."
Ao dizer "eu sei", fechamos as portas para qualquer processo de transformação e evolução – fazer isso é como dizer um não para os legítimos processos de melhoria e mudança – é dizer um não para a construção de uma vida muito mais próspera. Muitas vezes nos comportamos como se já soubéssemos de tudo – como um mecanismo automático de autodefesa para que a gente não se inferiorize ou se sinta inferior. Pessoal, o problema não está no não saber, e sim no não querer aprender.
Sócrates fundamentou toda a sua sabedoria no reconhecimento da própria ignorância: "Só sei que nada sei, e o fato de saber isso, me coloca em vantagem sobre aqueles que acham que sabem alguma coisa." Para ele, admitir que não sabemos é o primeiro passo para o verdadeiro conhecimento. Esta frase não é uma admissão de ignorância, mas um convite ao exame constante da vida. Ela nos estimula, através do método socrático de questionamento, a desafiar nossas certezas automáticas, transformando o "eu sei" em uma oportunidade de aprendizado genuíno. Esta prática abre portas para a imaginação, criatividade, inovação e consequente crescimento pessoal e profissional.
Imagine aplicar isso com constância e diligência em nossa rotina!? Como sabem – ficamos bons naquilo que praticamos todos os dias!
Napoleon Hill, em suas décadas de estudos sobre o sucesso, afirmava que a mente fechada é um dos maiores obstáculos à realização humana. Ele defendia que o aprendizado contínuo é a marca das mentes que alcançam o topo e constroem uma vida muito mais plena. Em "Pense e Enriqueça", ele nos alerta sobre a importância de desafiar crenças limitantes negativas, afirmando que "o que a mente do homem pode conceber e acreditar, ela pode realizar." Mas também enfatiza que isso requer desaprender padrões negativos enraizados, como vieses que nos mantêm em mentalidades de escassez. Hill nos inspira a reprogramar a mente subconsciente, questionando premissas antigas para abrir espaço a novas possibilidades, especialmente em áreas profissionais onde hábitos automáticos maléficos sabotam o sucesso nas mais variadas áreas da vida.
Muitas vezes é bem mais desafiador você desaprender algo que você já sabe (ou acha que sabe) do que aprender algo novo. Temos uma tendência de nos apegar e a superestimar o que sabemos, ou o que a gente “acha que sabe”. São vários os motivos para isso e eles se diferenciam de acordo com o contexto de cada caso - de acordo com cada pessoa, pois cada uma tem o seu jeito de ser, agir, pensar e sentir – sua identidade. Mas, um motivo muito comum é a resistência de uma mentalidade fixa...
Aqui, não uso a palavra "resistência" no sentido nobre de resiliência, mas no sentido de rigidez e teimosia. É a pessoa intransigente que não dá o braço a torcer, mesmo que o preço a ser pago seja sua própria felicidade e perspectivas de uma vida melhor. Marco Aurélio, o imperador filósofo, escreveu em suas Meditações que "a alma se tinge com a cor dos seus pensamentos". Se seus pensamentos são rígidos e turrões, sua vida será igualmente limitada e cinzenta.
Como sempre reforço com a Tempestando – mude as lentes com que enxerga o mundo e todo o seu mundo mudará! Este é o poder de um melhor pensamento crítico.
De qualquer forma, temos sempre que nos lembrar de deixar espaço para que o novo aconteça em nossas vidas e, muitas vezes, para que o novo aconteça é preciso abrir espaço se desconectando do antigo, do obsoleto, de tudo aquilo que não nos serve mais, mas continuamos teimando em carregar. É preciso aprender a desapegar, a deixar ir – a soltar...
Resistência, ego e a mudança de paradigma
O neurocientista Pedro Calabrez discute isso em suas palestras sobre neurociência aplicada ao comportamento, explicando que o cérebro resiste a mudanças porque elas demandam energia e ativam circuitos de medo – e como sabemos, o medo pode se manifestar das mais variadas formas, conforme a identidade de cada pessoa. Ele parafraseia conceitos da neuroplasticidade, dizendo que "o cérebro é como um músculo: quanto mais você o treina para desenvolver a flexibilidade de sua mentalidade, mais ele se adapta." Calabrez nos provoca a combater a resistência mental (a inflexibilidade de nossas convicções) cultivando hábitos de questionamento e reflexão diária. Sem isso, perpetuamos percepções distorcidas que bloqueiam mudanças e melhorias significativas em todas as áreas da vida.
Como ensina Bob Proctor, somos frequentemente prisioneiros de nossos "paradigmas" — um conjunto de hábitos e crenças gravados no nosso subconsciente que governam nosso comportamento sem que percebamos. Mudar exige uma força de vontade (e coragem) que muitos não estão dispostos a exercer. E outro motivo comum e agravante da estagnação gerada pela resistência de uma mentalidade fixa (assim como da própria mente engessada em si) é o ego e o orgulho – que torna estas barreiras cada vez mais intransponíveis, se não cuidado. Aliás, o ego e orgulho desequilibrados impactam negativamente não só nossas vidas, mas também a vida das pessoas ao nosso redor, interferindo na qualidade das diferentes naturezas de relações.
Esta é uma reflexão essencial para evitar as armadilhas mentais em que caímos diariamente. Sair do estado reativo exige humildade e coragem para questionar as próprias certezas e para aceitar que a mudança é a única constante. Portanto, ouse praticar todos os dias o exercício de "pensar de verdade". Questione seus gatilhos, desmonte seus automatismos maléficos e busque a sabedoria que reside no tão ignorado poder dos óbvios transformadores de vida.
Marcelo Tempesta, PhD


