Diversidade cognitiva

Uma das chaves para a construção de melhores versões de nós mesmos

Marcelo Tempesta, PhD

1/5/202611 min read

De que grupo você faz parte?

Começo esta reflexão com uma fala do professor e filósofo Clóvis de Barros Filho, que disse o seguinte: "Se você só consegue ter prazer com a confirmação do que você já sabe, evidentemente que você tende a morrer por aí. Agora, se você consegue ter prazer com aquilo que problematiza a tua convicção, aí você tem todos os motivos para acreditar num aperfeiçoamento psíquico e se tornar uma pessoa melhor."

Esta poderosa afirmação nos convida a um exercício fundamental de autoconhecimento e evolução. A intenção desta introdução é, portanto, estimular reflexões profundas para que a gente pare e repense sobre muitas de nossas convicções pessoais. É um convite para avaliarmos com mais qualidade o que escolhemos acreditar (e não acreditar) até então e o impacto que este conjunto de crenças pode exercer em nossas vidas, tanto para o bem quanto para o mal.

Este estímulo para escolhermos flexibilizar um pouco mais a nossa mente ressoa com a filosofia de Sócrates, que considera que a verdadeira sabedoria reside em reconhecer a própria ignorância, que não sabemos de tudo e nem somos donos de toda verdade... E, a partir daí, buscar o aprendizado contínuo, principalmente por meio do questionamento.

Portanto, este é um estímulo para interrogarmos nossas crenças mais profundas para revelar ignorâncias ocultas, assim como distorções em nossa percepção e de interpretação de contextos – pois só desta forma conseguimos abrir caminhos para o conhecimento e crescimento. Imagine aplicar isso no seu dia a dia: em vez de defender ferozmente uma opinião como um animal ameaçado defende seu território, use-a como ponto de partida para perguntas que desconstroem e reconstroem sua visão de mundo. Como disse Wayne Dyer: mude a forma com que você olha para as coisas e as coisas que você olha mudarão.”

Esta prática de cuidar melhor de “nossas lentes” nos liberta das amarras do "saber" estático e nos impulsiona para um aperfeiçoamento contínuo – nos impulsiona na busca de nos tornar, a cada dia, uma melhor versão de nós mesmos.

Essa flexibilização mental é a chave para nos tornarmos mais receptivos a um imenso universo de outras possibilidades, percepções e contextos desconhecidos até então. Este enriquecimento de repertórios só é possível quando nos permitimos abraçar a diversidade cognitiva. E, desta forma sim, fazermos reflexões de maior valor.

Quando eu falo reflexões de valor, me refiro ao processo de analisar, interpretar, tirar conclusões e dar significados a essas conclusões - após avaliações de maior qualidade, passando por cada passo deste processo com muito mais consciência e sabedoria. Tudo isso é o pensamento crítico em ação e um belo exemplo do que os estoicos, como Epicteto, tanto enfatizavam: "não são os acontecimentos que nos perturbam, mas sim o modo como os interpretamos".

A capacidade de reavaliar nossas convicções ao flexibilizar nossa mente é, portanto, um exercício de controle sobre nossos próprios julgamentos, um pilar fundamental para o desenvolvimento pessoal e profissional. E, como diria o psicólogo organizacional Adam Grant em seu livro "Pense de Novo" – é a arte de reavaliar e de ter a humildade intelectual para admitir que podemos estar errados, abrindo caminho para novas e mais precisas compreensões.

Muitas vezes temos que limpar um pouco nossas lentes para podermos considerar coisas que até então não estávamos enxergando. Outras vezes construímos barreiras mentais tão rígidas que, mesmo enxergando, escolhemos negar, ignorar das mais variadas formas só por serem diferentes. Temos sempre que nos lembrar que os fatos não vão deixar de existir só porque são ignorados, e o fato de ignorá-los não nos livra de ter que lidar com suas consequências. E é neste ponto que quero tocar, dentro do contexto de vieses, como abordado em reflexões anteriores.

Dito tudo isso, de que grupo você faz parte? Do grupo da rigidez mental ou do grupo que pratica a flexibilidade?

Para repensar...

O quanto você pode estar perdendo, retrocedendo, se prejudicando, justamente por se fechar e sequer considerar os contextos e percepções de pessoas que pensam diferente de você? Por isso é importante melhorar o pensamento crítico - para ter melhor discernimento, tomadas de decisões, escolhas e condutas.

A neurociência moderna, através de figuras como Daniel Kahneman, laureado com o Prêmio Nobel e autor de "Rápido e Devagar: Duas Formas de Pensar", iluminou nossa consciência e compreensão sobre o funcionamento de nossos "filtros mentais". Kahneman nos mostra que nosso cérebro opera com dois sistemas: o Sistema 1, rápido e intuitivo, e o Sistema 2, lento e racional. Muitas vezes, a rigidez de nossas barreiras mentais e a tendência a ignorar fatos que contrariam nossas crenças são produtos do Sistema 1, que busca conforto emocional e economia de energia, gerando assim os mais variados tipos de vieses cognitivos. Limpar nossas lentes, nesse sentido, é ativar o Sistema 2, submetendo nossas convicções e pensamentos a um exame mais profundo e minucioso – o que gera maior desconforto e gasto de energia.

De forma mais prática, Kahneman nos alerta que, sem ativar conscientemente o Sistema 2, caímos em armadilhas como, por exemplo, do viés da confirmação - onde buscamos apenas evidências que reforçam nossas crenças pré-existentes, ignorando todo o resto. No contexto de desenvolvimento pessoal, imagine aplicar isso: ao confrontar uma opinião oposta a sua, em vez de reagir automaticamente (Sistema 1), pause para analisar com rigor (Sistema 2), transformando potenciais conflitos em catalisadores para escolhas mais sábias em sua vida pessoal e profissional – fazer uma melhor gestão emocional e comportamental.

Essa resistência em aceitar o que é diferente, mesmo diante de evidências, foi algo que outros filósofos estoicos, como Sêneca, já observavam. Em suas "Cartas a Lucílio", Sêneca nos aconselha a viver de acordo com a razão, não com as paixões ou preconceitos. Ignorar fatos por mera conveniência ou apego a uma crença é uma falha da razão, uma rendição às emoções que nos impedem de ver a realidade como ela é. Ele nos ensina que a verdadeira liberdade reside em nossa capacidade de julgar com clareza, sem nos deixarmos levar por impressões distorcidas.

Marco Aurélio, outro grande estoico e imperador romano, nos lembrava que "Tudo o que ouvimos é uma opinião, não um fato. Tudo o que vemos é uma perspectiva, não a verdade." Esta percepção aguçada da natureza subjetiva de nossa experiência é crucial. Quando nos fechamos rigidamente, não apenas ignoramos fatos, mas também distorcemos a nossa própria perspectiva, criando uma realidade limitada. Melhorar o pensamento crítico é, portanto, um ato de autoconsciência, um esforço deliberado para confrontar nossos vieses e ampliar nossa consciência e compreensão do mundo e tudo que dele faz parte.

Nada melhor do que conversar com alguém que tem outras coisas para dizer além do que você já tinha pensado...

Cito mais um raciocínio do professor Clóvis de Barros, que diz: "Do ponto de vista de capacidade intelectual, do ponto de vista de alargar as possibilidades de associação de ideias, nada melhor do que conversar com alguém que tem outras coisas para dizer além do que você já tinha pensado." Pessoal! Isso é enriquecedor, mas... Infelizmente, a maioria foge, se priva deste tipo de conversa pelos mais variados motivos que, de forma geral, se originam pelo baixo grau de pensamento crítico desta mesma maioria.

Essa ideia de enriquecimento através do diálogo e da troca de ideias é a essência do método socrático. Sócrates não ensinava verdades, mas guiava seus interlocutores através de perguntas e respostas para que eles mesmos descobrissem suas contradições e chegassem a novas compreensões. Conversar com alguém que pensa diferente não é um embate, mas uma oportunidade de aprimorar o próprio raciocínio, de testar a solidez das nossas convicções e de construir um conhecimento mais robusto e multifacetado. É o que Platão demonstrava em seus diálogos, onde a verdade emergia não de um monólogo, mas do confronto respeitoso de diferentes pontos de vista.

E como disse Santo Agostinho: "Há homens que se agarram a sua opinião, não por ser verdadeira, mas simplesmente por ser sua." Essa frase encapsula uma das maiores armadilhas do pensamento humano, que hoje, na verdade, se tornou um de seus grandes males. Essa rigidez, como Marco Aurélio compartilha em suas "Meditações", surge de uma falta de autoexame diário: "Examina as opiniões alheias como se fossem tuas, e as tuas como se fossem alheias." Ele nos incentiva a adotar uma perspectiva imparcial, tratando nossas crenças com os mesmos critérios que aplicamos às dos outros - isso promove não só empatia verdadeira, mas uma maturidade que transforma conversas em ferramentas de autodesenvolvimento.

O neurocientista brasileiro Pedro Calabrez, em suas palestras e escritos, frequentemente aborda como nosso cérebro é "preguiçoso" e busca a familiaridade. Nossas opiniões se tornam parte da nossa identidade, e defendê-las, mesmo quando infundadas, é uma forma de proteger nosso ego. Isso explica por que, na maioria das conversas, as pessoas buscam mais defender suas opiniões do que compreender as do próximo.

Por isso que a maioria das pessoas não pratica a escuta ativa e a verdadeira empatia. Por isso que a maioria das pessoas passa sua vida inteira no mais baixo grau de pensamento crítico - como pensadores irreflexivos. Aproveito para compartilhar conceitos neurocientíficos parafraseados por Pedro Calabrez - "a empatia não é só sentir o que o outro sente, mas entender por que ele sente", o que quebra barreiras mentais e previne conflitos ao fomentar conexões mais profundas.

Adam Grant, em "Pense de Novo", complementa esta reflexão ao defender a "flexibilidade cognitiva" – a habilidade de repensar e atualizar crenças à luz de novas evidências. Grant argumenta que, em um mundo de mudanças cada vez mais velozes, profissionais que se prendem a opiniões fixas estagnam e ficam cada vez mais obsoletos, enquanto aqueles que escutam ativamente e questionam se adaptam e inovam.

Agora pensa comigo: em sua busca por mudanças na carreira ou relacionamentos, por exemplo, quantas oportunidades você perde ao priorizar a defesa em vez da descoberta?

Essa falta de abertura e apegos dogmáticos nos impedem de formar o que Napoleon Hill, em "Pense e Enriqueça", chamava de "Mente Mestra" (Mastermind). Hill argumentava que a união de duas ou mais mentes em um espírito de perfeita harmonia, com um propósito definido, cria uma força mental mais poderosa do que a soma de suas partes individuais. Ao nos fecharmos, perdemos essa sinergia intelectual, essa capacidade de gerar novas ideias e soluções que surgem do choque e da fusão de perspectivas diversas. Por isso tantas crenças e realidades limitantes, tantos problemas e conflitos. Tudo isso, todas essas coisas entre tantas outras mais, são tanto causas como consequências uma das outras.

O que você anda desprezando e que tanto te prejudica por desprezar?

Voltando ao assunto do quanto a gente pode perder e se prejudicar ao se fechar com rigidez aos contextos e percepções de pessoas que pensam diferente de nós – o quanto a gente pode perder e se prejudicar por desprezar pensamentos diferentes dos nossos...

As pessoas que falam exatamente o que você pensa, que têm as mesmas opiniões, que acreditam nas mesmas coisas que você, claro que te trazem ganhos positivos, mas claro que também têm os pontos negativos se nos fecharmos apenas a este grupo. Ao nos fecharmos com rigidez, aumentamos nossos vieses, caímos em armadilhas cognitivas que distorcem nossos pensamentos, afetando assim nossa percepção e formação de opiniões, distorcendo assim todo o resto.

Em "Sobre a Brevidade da Vida", Sêneca nos adverte contra essa inflexibilidade: "não é que tenhamos pouco tempo, mas que perdemos muito", referindo-se ao tempo desperdiçado ao nos acorrentarmos a opiniões rígidas que nos impedem de aprender com a diversidade. Sêneca nos provoca a viver com mais intencionalidade, usando cada interação para expandir nossa sabedoria, em vez de desperdiçá-la em defesas vazias.

A rigidez mental é um terreno fértil para a proliferação de vieses, como o já mencionado viés de confirmação, que nos faz buscar e interpretar informações de forma a confirmar nossas crenças preexistentes. Daniel Kahneman e Amos Tversky demonstraram exaustivamente como essas "armadilhas cognitivas" são sistemáticas e afetam nossas decisões, escolhas e comportamentos, muitas vezes sem que percebamos. Quando nos cercamos apenas de pessoas que pensam como nós, criamos uma "bolha" que amplifica cada vez mais a rigidez de nossas crenças e nos isola de informações dissonantes, tornando-nos ainda mais suscetíveis a erros de julgamento.

Essa autolimitação é, na visão estoica, um grande obstáculo à nossa tranquilidade e progresso – um grande obstáculo para a construção de uma vida mais plena. Epicteto nos ensinaria que a verdadeira prisão não são as circunstâncias externas, mas a rigidez de nossa própria mente. Se nos fechamos para o novo e o diferente, somos nós mesmos que construímos as paredes de nossa prisão mental.

A rigidez da maioria que não permite passar quase nada neste filtro (e quando deixa passar, são coisas de baixa qualidade) é, em essência, uma recusa em exercer a virtude da razão e da abertura, condenando-a a uma visão de mundo empobrecida – e assim serão suas decisões, escolhas e condutas – consequentemente – assim serão suas realidades nas diferentes áreas da vida. Como Bob Proctor frequentemente enfatizava, nossos paradigmas – esses conjuntos de hábitos e crenças profundamente enraizados – moldam nossa realidade. Se esses paradigmas são rígidos e limitantes, eles nos impedem de ver e aproveitar as oportunidades que estão além de nossa zona de conforto/acomodação intelectual.

Desta forma, esta mesma maioria "mata sua sede" e se enviesa cada vez mais com coisas de baixa qualidade, diminuindo cada vez mais o seu mundinho e a qualidade do mesmo. Por isso é importante melhorar nosso pensamento crítico. Justamente para melhorar nosso discernimento e escolhas ao longo de todo este processo de forma de pensar e criação de realidades. Melhorar não só as lentes, mas também nossos filtros para uma seleção de maior diversidade e qualidade.

Tudo isso é um motivo a mais para enfatizar o conceito de que inteligência é diferente de sabedoria. "Onde pessoas sábias conversam, opiniões diferentes não geram conflitos, geram novas ideias..." Esta frase captura a essência da distinção entre inteligência e sabedoria, uma diferença crucial que Aristóteles explorou profundamente. Para ele, a inteligência (ou episteme, o conhecimento teórico) é a capacidade de adquirir e processar informações. A sabedoria (phronesis, ou sabedoria prática), por outro lado, é a capacidade de aplicar esse conhecimento de forma eficaz e ética na vida real, discernindo o que é bom e justo em cada situação.

Por isso que pensamento crítico não tem a ver com inteligência em si, com "o conhecimento que temos..." Mas sim, com a forma que executamos o conhecimento adquirido, com a forma com que colocamos tudo o que queira considerar em prática. Com a qualidade com que vivenciamos as experiências que passamos e o grau de maturidade que isso nos traz. Repito: tem a ver com a qualidade com que vivenciamos as experiências que passamos e o grau de maturidade que isso nos traz.

A sabedoria, portanto, não é apenas saber, mas saber fazer e saber “ser”. Os estoicos, como Marco Aurélio, viam a filosofia não como um conjunto de teorias abstratas, mas como um guia prático para a vida. Suas "Meditações" são um testemunho de como ele aplicava a filosofia estoica para gerenciar o império e sua própria alma, buscando a virtude e a tranquilidade através do controle de suas percepções e reações. A sabedoria é a arte de viver bem, de aprender com cada experiência e de crescer através do confronto com diferentes perspectivas.

Bob Proctor reforça essa ideia ao afirmar que "o conhecimento não é poder; o o conhecimento aplicado que é poder." Não basta acumular informações; é preciso ativá-las, testá-las, confrontá-las com a realidade e com as ideias alheias para que se transformem em sabedoria e gerem resultados tangíveis em nossa vida. É a qualidade da nossa interação com o mundo, e não a quantidade de dados que armazenamos, que define o nosso grau de maturidade e a profundidade da nossa sabedoria.

Portanto, afie sua mente para ter cada vez mais conversas de valor e, que elas sejam cada vez melhores e frequentes em sua vida. Faça esta escolha e espalhe esta chama, pois ao abrir sua mente para o diálogo e para o questionamento de suas próprias convicções, você não só se aprimora, mas também contribui para um mundo onde a troca de ideias é um motor de progresso e não uma fonte de conflito.

Marcelo Tempesta, PhD