A caminhada até agora
Recapitulação de alguns pontos básicos, pois o básico funciona!
Marcelo Tempesta, PhD
1/12/20268 min read


Não ignore o básico...
Ao longo destes primeiros passos que percorremos, um dos objetivos foi enfatizar o quanto a nossa forma de pensar é importante para qualquer coisa que a gente queira considerar. E por mais óbvio que isso possa parecer, o fato da maioria ignorar este óbvio é a causa de praticamente todos os problemas que a gente possa imaginar.
E aqui eu já puxo um gancho que atravessa séculos: Sócrates incomodava Atenas inteira com um princípio simples e devastador — a vida precisa ser examinada. Não porque “pensar é bonito”, mas porque sem exame, a gente vive no piloto automático, repetindo opiniões, vícios mentais, medos e justificativas como se isso fosse “a nossa personalidade”. E quando você não examina, você não escolhe: você só reage. Ele acreditava que a verdadeira sabedoria começa com a admissão de que "só sei que nada sei", convidando-nos a um exame constante de nossas crenças para evitar cairmos em armadilhas de ignorância disfarçada de certeza. Essa abordagem complementa diretamente a ideia de que ignorar o óbvio nos mantém presos em ciclos negativos, pois sem questionamento profundo (como Sócrates defendia através de diálogos que desconstroem suposições) não acessamos a essência do que realmente molda nossa existência.
Aproveitando o gancho, saber o que foi exposto acima e praticar isso em nossas avaliações nos coloca em vantagem sobre aqueles que acham que sabem de tudo ou que julgam não precisar aprender mais nada...
Então, para relembrar e reforçar este assunto, vamos recapitular alguns pontos que já foram compartilhados. Pois a vida é assim… Feita de repetições! Mas estas repetições podem nos levar à excelência ou à escassez. Pois somos aquilo que praticamos. Então se pergunte: para onde minhas repetições estão me levando?
Os estoicos seriam bem diretos neste ponto: o que a gente repete vira caráter. Sêneca, ao escrever sobre hábitos e formação interior, insiste numa ideia prática — a mente não se “organiza” sozinha; ela é treinada. Marco Aurélio, nas suas anotações pessoais (quase como um diário de guerra contra si mesmo), volta sempre ao mesmo ponto: a mente tende a escorregar para a distração, para a reclamação, para a interpretação torta. E se você não a treina, você cai no padrão.
Ou seja, a qualidade de nossas realidades, em qualquer área e aspecto da vida que queira considerar, é resultado da qualidade daquilo que praticamos todos os dias… Mas enfim, vamos por partes!
Aquilo que controla sua mente, controla a sua vida! É você quem realmente está no comando?
Buda é um dos muitos que já diziam, em essência: a mente precede a experiência; aquilo que você cultiva por dentro muda o que você enxerga por fora. “A mente é tudo. O que você pensa é o que você se torna.” E isso ressoa com algo que atualmente a neurociência e a psicologia mostram sem poesia, mas com muita firmeza: o cérebro reforça circuitos e vias. Tudo aquilo que você repete com frequência/constância, o cérebro aprende a repetir com cada vez mais efetividade e, priorizando o menor gasto energético possível, encurta “caminhos” e automatiza ao máximo os processos envolvidos no ato em questão – a ponto de se tornar uma reação automática e inconsciente. Ou seja, não envolve o pensar de verdade.
Em outras palavras, para simplificar: frente a estímulos presentes no meio em que estamos inseridos, automaticamente reagimos sem nenhum questionamento e avaliação – sem executar o nosso verdadeiro poder de escolha – a não ser que você, de forma consciente e intencional, tenha decidido construir este condicionamento - tenha se disciplinado. Mas este é um outro assunto...
Aqui eu conecto um ponto que o neurocientista Pedro Calabrez costuma destacar de forma bem didática: nosso cérebro busca economia, busca atalhos, busca previsibilidade. O automático não é “um defeito moral”; é um mecanismo biológico. Mas o preço disso é alto: se você não ativa o modo analítico, você vira refém de vieses, de gatilhos, de impulsos, de narrativas prontas, entre tantas outras coisas mais.
Compreenda que, se as ações que estamos repetindo diariamente forem boas e do bem (positivas e construtivas) - desenvolvemos ciclos virtuosos com automatismos benéficos. Mas, se as ações forem ruins e fazem mal (negativas e destrutivas) - desenvolvemos ciclos viciosos com automatismos maléficos.
Dito isso, percebeu que nosso corpo é feito para ter disciplina!? A grande questão é: estamos nos disciplinando em quê? Você está como protagonista, verdadeiramente escolhendo em que se disciplinar, ou está como refém de um mundo e circunstâncias que escolhem por você? Você está no controle e não te falta disciplina para executar o que te enobrece e te faz prosperar? Ou você está dominado e é mais um a dizer que não tem disciplina para determinado ato que a qualquer momento você pode começar a desenvolver? Como se disciplina fosse um talento, um dom nato destinado a poucos...
Mas enfim, voltando ao contexto de que a mente é tudo... Napoleon Hill enfatizava esta máxima das mais variadas formas e cito uma frase (da milhares existentes) como exemplo: “todo pensamento emocionalizado, unido a fé, tende a se realizar, a se materializar.” Bob Proctor, influenciado por Hill e pela lei da atração, vai além ao explicar que nossos pensamentos são como sementes plantadas no subconsciente, que germinam em hábitos e resultados. Ele nos alerta que, se repetirmos padrões negativos, colheremos escassez, mas ao cultivarmos visões elevadas com emoção e diligência, transformamos nossa realidade de dentro para fora.
Portanto pessoal, cuide! Alimente com qualidade aquilo que determina todo o resto… Compreenda que nossa mente é o nosso bem mais precioso e, sem uma mente saudável, não desfrutamos de nenhuma outra preciosidade que a vida tanto pode nos proporcionar. E nesse ponto, os estoicos praticamente “assinam embaixo” com uma outra linguagem: se você perde a governança da sua mente, você vira escravo do ambiente e de tudo que dele faz parte - da somatória de influências externas e impulsos internos - se distraindo assim por qualquer prazer.
Citando Victor Hugo: “Quem não é senhor do próprio pensamento não é senhor das próprias ações.” Portanto, não ignore e nem menospreze o poder deste óbvio. Quantas preciosidades estamos deixando passar despercebidas (ou desprezando) no nosso dia a dia devido a muitos de nossos comportamentos se originarem a partir de um baixo grau de pensamento crítico? Saiba que custa caro não pensar de verdade – custa um futuro mais promissor, uma vida com experiências de cada vez mais qualidade.
Pilares e primícias para regermos nossa vida
O pensamento por si só não é realidade, mas é a partir dele que nossas realidades são criadas e moldadas. Cada um de nós experimenta a vida baseado nas percepções que cada um tem do mundo - no olhar que cada um escolhe considerar… Nós escolhemos os sabores que a vida terá, mesmo quando a vida nos traz algo que não foi de nossa escolha… Quanto melhor for o nosso pensamento crítico, melhor o nosso olhar será!
Aproveito para compartilhar uma frase de Ray Dalio, de seu livro Princípios, onde ele diz o seguinte: “para extrair o máximo da vida é preciso reunir coragem para pensar de forma independente, mantendo a mente aberta e lúcida a fim de descobrir o melhor rumo a tomar.”
E aqui entra um complemento muito alinhado com este contexto - Adam Grant, em seu livro “Pense de Novo”, defende que maturidade intelectual não é ter certezas fortes/poderosas, mas sim, é ter a capacidade de atualizar convicções sem colapsar o ego. É a ideia de humildade confiante: ter coragem para sustentar princípios e valores, mas também flexibilidade para revisar crenças.
Sou adepto da ideia de conduzir a vida baseado em princípios e valores bem definidos, reavaliando e atualizando crenças e convicções com certa flexibilidade sempre que a intuição me fizer sentir necessário, pois o mundo está em constante evolução – e aquele que não evolui a sua forma de pensar e criar realidades (as lentes com que enxerga o mundo) – fica para trás e sofre muito mais com as consequências destas mudanças e disrupções.
E falo com certa flexibilidade, pois temos que partir do princípio de que não sabemos de tudo e nem somos donos de todas as verdades. Não aceitar este fato é sintoma de baixo grau de pensamento crítico, é ter rigidez mental, é cultivar o lado sombrio do ego e orgulho. Sócrates faria aqui uma provocação que é quase um espelho disso que foi dito: quando você acha que já sabe, você para de perguntar. E quando você para de perguntar, você para de crescer. A rigidez mental é isso: não é força; é fragilidade/fraqueza travestida de certeza.
E os frutos de permanecer rígido assim são amargos, longe de serem os melhores... Como se sabe, o que não está evoluindo, está retrocedendo, visto que estabilidade não existe... E se não inverter esta polaridade - estagna, deteriora e aos poucos vai deixando de existir...
Mas voltando, como cada pessoa tem a sua identidade - o seu jeito único de ser, agir, pensar e sentir - é de se esperar que cada um tenha seu próprio conjunto de princípios e valores que o ajude como um guia, uma luz, direcionando o rumo a tomar (claro, se se manter fiel a eles)... Mas, na prática, não é bem o que acontece. Muitas pessoas estão desnorteadas, perambulando perdidas justamente por não terem o seu próprio conjunto de princípios e valores — atenção nesta parte — por não ter um conjunto de princípios e valores definidos por elas…
Repito: estão desnorteadas, perambulando perdidas por não terem o seu próprio conjunto de princípios e valores definidos por elas mesmas. E lembrando: se não é você quem está escolhendo, estão escolhendo por você! Se não é você quem está definindo - definiram por você...
E aqui novamente trago Kahneman, com um ponto bem incômodo: nós tendemos a acreditar que somos “agentes racionais” quando, muitas vezes, somos apenas bons contadores de histórias sobre nós mesmos. A gente cria a narrativa de que escolheu, de que decidiu, de que foi consciente — quando, na verdade, só seguiu a trilha mais fácil: a do hábito, do medo, da necessidade de aprovação, da cultura, do grupo, do senso de pertencimento, do impulso, dos ambientes que foi exposto(a) ao longo da vida e dos que se expõe atualmente, entre tantas outras influências mais...
Repense a respeito sobre tudo isso que foi dito até aqui, mas com um olhar mais flexível – com uma mente mais aberta. Cuidado com as armadilhas do baixo grau de pensamento crítico que tanto nos cega e ilude, nos fazendo acreditar que realmente estamos exercendo nosso poder de escolha, nosso livre arbítrio, quando na verdade estamos mais como marionetes de primícias distorcidas e impostas, sem autonomia alienados por desinformação e falsas narrativas, assim como conduzidos pelos outros e tantas outras coisas mais...
Desperte!
Reflita: o que você está escolhendo acreditar (e não acreditar)? As crenças que carrega com tanta convicção te aproxima ou distancia da vida que, lá no íntimo, você verdadeiramente gostaria de viver? Estão te ajudando ou atrapalhando a conquistar as mudanças e melhorias que tanto deseja, em qualquer área da vida que queira considerar? Se questione – ouse pensar de verdade!
E aqui eu adiciono um contexto estoico que corta como uma afiada lâmina: liberdade não é “fazer o que dá vontade”. Liberdade é não ser governado por aquilo que te domina por dentro, é saber a origem da vontade... Liberdade é você dominar o seu interior – fazer uma melhor gestão emocional e comportamental. Por isso que nada é mais poderoso do que a pessoa que domina a si mesmo, e para isso é imprescindível o “conhece-te a ti mesmo.”
Portanto, escolha afiar a sua mente! O objetivo principal deste início de caminhada é justamente mostrar o quanto é importante melhorar o nosso pensamento crítico. Permita-se, conecte-se e faça você a mágica acontecer. Semana que vem, continuamos esta reflexão! Até lá!
Marcelo Tempesta, PhD


